Diário de uma Mostra – Parte I – O Público

Estou há um ano na Revista de CINEMA, com muito orgulho digo isto. Já que, neste um ano passei por muitos perrengues de fechamento, queda de pauta e matérias mal-escritas. De qualquer forma, com este um ano, ‘ganhei’ uma coisa do chief: a oportunidade de cobrir a Mostra de Tiradentes. Se vc não conhece mto de cinema brasileiro – tudo bem, eu também era assim – a Mostra de Tiradentes é uma das principais mostras de cinema independente do país.

Durante sete dias, mais de 100 filmes passam nas telas instaladas na praça da cidade e no centro cultural.Tiradentes é tão pequena que não tem cinema, bizarro ela ser uma das Mecas do cinema independente nesses dias de Mostra. De qualquer forma, temos aqui, no mesmo local: diretores de cinema, produtores, associações, críticos e… o público. E, é sobre esses últimos que quero falar hoje.

Ontem aconteceu a abertura da mostra, com a exibição do filme Viajo porque preciso, Volto porque te amo, de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes (Karim foi o diretor de Céu de Suely; Marcelo Gomes diretor de Cinema, Aspirinas e Urubus; dois filmes muito bons da chamada ‘nova safra’ do cinema brasileiro). Já tinha assistido a esse filme na Mostra Internacional – outro evento que tive o prazer de cobrir pela Revista – e tinha viajado mais que a personagem principal para poder entender as distorções imagéticas que o filme traz nas telas. Gostei tanto do filme da primeira vez como se pode gostar de uma comida simples. Não me tocou, não me comoveu tanto, mas entendi o propósito dos diretores, e os respeito por isso.

Desta segunda vez que assisti, o meu gosto por ele aumentou, e boa parte das tentativas experimentais dos diretores não passaram incólumes ao meu olhar. Não que tenha o olhar treinado ou algo assim, só que existem coisas que só percebemos ao assistir um filme muitas vezes (para para meu pensamento: filmes bons são tão densos como pessoas, precisamos de certa convivência com ele para poder entendê-lo e o apreciar da maneira que merece).

Como um filme experimental e de narrativa nada clássica, lógico que sabia que uma boa parte do público não iria compreender a viagem. Não iria aceitar o acordo no começo do filme, portanto, não viajaria junto com ele. Isto me deixou um tanto incomodada, no começo da sessão todos batiam palmas loucamente, queriam muito ver o filme. Lógico, toda a pompa da abertura bateu na cabeça dessas pessoas, e elas estavam ansiosas para assistir o longa. Sabia que ia dar merda, e …bem…. não que tenha dado, mas foi desconfortável.

Não acredito na existência de um público melhor que o outro, acredito que existam públicos de perfis diferentes. Quando se tem uma obra deste tipo, experimental como é, o tipo de abstração que temos que ter é bem maior que quando nos é colocado um filme de narrativa e linguagens clássicas. Um filme não é melhor do que o outro, e quero deixar isso bem claro. Eles apenas exigem contrapartidas diferentes do público. Assim como o próprio público espera contrapartidas diferentes destes filmes. É algo simbiótico.

Escutava os comentários sobre o filme absorta no que estavam falando. Absorta nas palavras “estranho” ou “parado”; absorta na reação adversa das pessoas. Não quero aqui criticá-las, acho que cada um pode ter a arte que quer. Só quero mostrar que às vezes o nosso costume nos cega, paralisa nossos sentidos. Somos tão bombardeados por uma linguagem única, por uma narrativa única, que nossa capacidade cognitiva se congela, e qualquer coisa que foge desse estilo a que estamos acostumados já é taxado de ruim.

Fiquei pensativa quando as palmas esparsas ecoaram na plateia, durante o final do filme. Palmas educadas e de praxe pois o diretor estava presente. Pensei nos dois lados: no do público e no dos artistas. Será que o público era obrigado a entender? Será que os artistas tinham que se fazer entender? Será que é necessário se entender algo para embarcar na viagem?

E, enquanto saía pensando em todas essas possibilidades artísticas, escutei a conversa de quatro pessoas sentadas ao fundo da sala. Elas estavam discutindo o filme, discutindo os sentimentos, revendo as imagens. E percebi, que é por isso, é para isso que Karim e Marcelo fizeram seu filme.

Não importa o quanto se atinge, mas como se atinge.

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Um pensamento sobre “Diário de uma Mostra – Parte I – O Público

  1. Olá, Camila. Aqui é a Letícia que participou junto com você daquele processo da Abril.
    Muito bom o seu relato sobre a Mostra de Tiradentes, especialmente sobre “Viajo porque preciso, Volto porque te amo”. Também vi esse filme na Mostra de SP e notei comentários parecidos do público, pessoas saindo no meio da sessão, esse tipo de coisa. Realmente não são todos que aguentam poesia ou conseguem achar a veia.
    Queria pedir uma coisa se possível. Você poderia dar dicas de lugares para se ficar, pra se comer, essas coisas, durante a Mostra? Esse ano não deu, mas gostaria muito de ir ano que vem (se não for a trabalho que seja por simples lazer). beijos, Letícia

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