Marina Martins Colantônio

Não sei porque fiquei com vontade de escrever sobre ela. Acho que com esse clima todo de futebol no ar, é impossível não lembrar dela. Uma das mulheres mais fortes e inteligentes que já conheci. Dona Marina Martins Colantônio, a dona da aliança que uso na minha mão direita, minha vó.

Ela era uma pessoa engraçada e, no mínimo, peculiar. Conversava com qualquer pessoa que parasse do seu lado, qualquer mesmo. No mercadinho lá perto de casa, em Santos, era uma das clientes mais conhecidas. Ás vezes saía de manhã e só voltava na hora do almoço, porque ficava trocando ideias com o dono do lugar, ou com uma das atendentes. Era cliente mais do que preferencial, tinha um caderneta com o nome dela e a usava pra comprar todas as besteiras que as netas queriam comer.

Quando insistiam em fazer feijão, esta menina chata que vos fala fechava a cara – não gostava de comer quase nada nessa época – então ela falava baixinho pra eu não me preocupar. Em questão de minutos, voltava com um prato de macarrão na manteiga pra mim.

Tinha uma letra bonita, redonda e clara. Mas não tinha caderno, anotava tudo em qualquer papel pela casa, desde listas de telefone, até revistas ou agendas antigas. Fazia contas em qualquer lugar e, ocasionalmente, trocava real por cruzeiro e cruzado.

Era difícil fazer com que ela contasse histórias dela. Apesar de muito faladora, ficava em silêncio quando lhe perguntavam coisas de sua vida pessoal. Gostava mesmo era de ensinar; uma vez professora, sempre professora. Tentou me ensinar a fazer conta de dividir com dois números na chave, ficou frustradíssima porque não aprendi direito. Tentou me ensinar a ler e escrever, ficou orgulhosissima porque aprendi direito demais (tinha 4 anos de idade).

Fez magistério e começou a trabalhar para o Estado. Nessa época, para ser professora em alguma escola santista, precisava dar aulas em algumas outras no litoral sul de São Paulo . Assim o fez, mesmo noiva. Falou para meu vô que essa era uma condição para que se casassem: que ele a esperasse e que ela trabalhasse.

Casou-se, como mostra a aliança que ainda uso, no dia 19 de julho de 1955, com quase 31 anos. Guardava cartas da época em que ficou separada de meu vô, quando trabalhava em Registro – ou Peruíbe, nunca lembro bem qual cidade. Lembro de ter lido apenas uma (clandestinamente, confesso), em que ela se preocupava porque meu vô tinha reclamado de tosse.

Ele morreu no final de 88, e ela não quis procurar mais ninguém. Se brincavam ao dizer para ela procurar algum novo namorado em alguns dos bailes – famosos bailes – da terceira idade em Santos, respondia muito séria: “Mas meu marido já morreu. Meu amor já morreu”. Recusava-se a pintar o cabelo, mantinha-os brancos e curtos. Mas soube por fotos que já tinham sido encaracolados e castanhos escuros, como os meus. Não furou a orelha, optava por brincos (médios) de pressão.

Enlouquecia minha mãe porque não conseguia dispensar empregadas. Ficava amiga delas, e não entendia o porque das mil exigências com limpeza que a minha mãe fazia. Enlouquecia ainda mais com o meu hábito e de minha irmã de comer na frente da televisão, achava que almoço e janta eram para serem feitos na mesa.

Como aconteceu com o meu pai – e com o pai dele – foi absorvida pela família Lira. Era a avó de todos. “Dona Marina”. Ah, e sobre o nome, tem uma história que gostava de contar (uma das únicas): diz que na época que tinha 20 e poucos anos, foi num sarau/show de Silvio Caldas; ele resolveu cantar uma música e dedicar a uma pessoa da plateia. Ele olhou para ela, e cantou “Marina”.

Quando era criança, ganhava de todos os meninos nos campeonatos de bola de gude. Quando adolescente, disputava lugar com os homens na sala para escutar o futebol no rádio. Era fanática pelo Santos, amava assistir futebol e falar sobre o tema com as pessoas. Morreu antes de ver o Santos campeão brasileiro em 2002, uma pena, ela teria amado gritar ao assistir o ‘menino Robinho’ jogar.

Na sua última semana de vida, não quis visitá-la no hospital. Fiquei do lado de fora, nos jardins do Guilherme Álvaro. Escutei, da janela, ela perguntando por mim e dizendo que queria me apresentar aos enfermeiros. Aparentemente, tinha falado de mim para todos. Eu não queria ver aquela pessoa que sempre teve ojeriza a médicos e que sempre tinha sido tão saudável, em um leito coletivo de hospital. Uma parte de mim achava que ela sairia de lá, por isso, seria inútil me colocar aquela imagem na cabeça.

É injusto, muito injusto, que ela conseguisse proferir o orgulho que tinha de mim para os outros [e para mim], e eu não ter conseguido fazer o mesmo com ela.Fiquei debatendo isso na minha cabeça, e decidi que, da próxima vez que fosse para o hospital, entraria no quarto. No dia seguinte, os médicos decidiram induzi-lá ao coma, e perdi minha chance. Não fui ao enterro dela, nem ao funeral.

As únicas homenagens que fiz para ela foram uma gérbera em seu túmulo e este texto.

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5 pensamentos sobre “Marina Martins Colantônio

  1. Queria muito ter conhecido a sua vó e ter ainda mais certeza de como vcs se parecem! Adorei a descrição, o carinho, o cuidado, a admiração que vc dedicou a “Dona Marina”! Certeza que ela tá maior feliz em receber isso tudo da neta!

  2. Cá, adorei, você conseguiu descrevê-la perfeitamente em palavras, coisa muito difícil! Enquanto lia, quase pude vê-la e ouvi-la, lembrei de tudo como um filme… tudo tão rápido… ainda me pergunto sobre tudo o que aconteceu, como, porque… e me emocionei muito. Eu tenho ceteza que ela acompanha todos os nossos passos… mas de um lugar muuuuuuuuuito melhor do que esse onde estamos agora.

  3. Tenho certeza que a sua existência é a maior homenagem que alguém já prestou a ela.
    Aquela que conversa com todo mundo… Aquele fã do Santos… Aquela que está nas discussões com os meninos… A aliança.
    Tudo em você é uma grande homenagem. A gente ouviu coisa parecida no primeiro ano de faculdade, lembra? Procriar é se fazer imortal? Acho que é verdade…
    beijocas

  4. Não podia deixar de concordar, nas palavras doces que a sua amiga mesma adotou: “Tudo em você é uma grande homenagem”. Perdi meu avô há pouco tempo, e também não me dei à oportunidade de vê-lo em seus momentos finais… sei como é a sensação, me emocionei bastante, e vi neste seu texto uma bravura de beleza sem igual.

    Pensando de uma forma até paralela ao seu último post, acho que toda reza, todo desabafo, todo poema, é acima de muita coisa, uma verdade proferida para alimentar à sua própria alma, ao seu próprio coração. Uma comunicação consigo mesmo. Tenha a certeza de que sua avó, portanto, leu esta homenagem – e tem muito orgulho de você!

    Um beijão e nos falamos!

  5. Pingback: Cozinha, a última fronteira do feminismo. Ou seria a primeira? | Paulicéia e Desvairada

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