Uma noite qualquer

A leve brisa de verão se intensifica e eleva o tecido da minha saia levemente para a esquerda. O tempo passa enquanto espero minha amiga em frente a um bar. A calçada está em construção e eu me posiciono estrategicamente encostada numa pilha de pisos que, algum dia, estarão colados ao chão.

Uma menina passa apressadamente do outro lado da rua. Um carro para na minha frente. Saem dele dois senhores ricos de meia idade, um segura um blackberry e o outro uma sacola com uma marca de jacarézinho. O do blackberry usa seu aparelho para ligar para uma amiga, possivelmente aniversariante, e pergunta para ela quando ela chegará ao local em que estão. Eles seguem para o bar ao lado de onde estou. Um relâmpago corta o céu.

A rua parece uma linha limite, um meridiano: de um lado prédios, de outro bares. O neon azul da entrada do lugar em que estou ilumina uma parte do meu rosto, a outra parte do meu rosto é iluminada por algo amarelo e laranja. Essas cores vem do bar que, no quesito faixa etária dos frequentadores, se difere bastante daquele que irei.

Indo para o lado oposto da maioria das pessoas está uma dupla de trabalhadores. Ambos estão suados e parecem estar voltando do ambiente de trabalho. Duas ou três pessoas atravessam a rua com seus respectivos cães. Um desses cães tem a língua para fora e resiste aos puxões da coleira de seu dono. O fogo que aquece os amendoins que um senhor tenta vender aos transeuntes dá um tom amarelado à calçada. A cada passo do vendedor, o fogo se move mais, ameaçadoramente. Por alguns segundos parece que ele irá queimar toda a mercadoria; nos segundos restantes, ele segue, seguro, em sua pequena gaiola.

Um garoto alto passa marchando. Seus passos parecem acompanhar a música que apenas ele está escutando. Um outro rapaz não tem tanta sutileza e deixa a música que escuta aberta para todos em um celular preso à alça esquerda da sua mochila. Mais um relâmpago corta o céu, que fica levemente avermelhado.

Uma mãe caminha de mãos dadas de sua filha, que chora silenciosamente. Uma garota vestida com roupas de ginástica trota em passos largos carregando duas pequenas sacolas de supermercado.Uma outra garota, mas recém-arrumada sai da entrada principal de seu prédio. Ela olha para os lados, abre a bolsa e a fecha novamente. Desce as escadas e, sem demora, entra num táxi.Uma vez ou outra esses carros atravessam os pontos direito e esquerdo do meu olhar na rua.

Um carro prateado para bem na minha frente. Os vidros escuros se abrem, uma menina olha através de uma fresta nele. Decepção: o bar onde me encontro ainda está bem vazio. Tal informação é passada de pessoa em pessoa no carro, eles decidem não se incomodar em sair dele.  O barulho do motor do carro se perde e um silêncio momentâneo se instala. Até que novos barulhos de motores cortam o ar e novos carros aparecem na vista.

Mais um relâmpago brilha nos céus. Mas este veio acompanhado de um vento mais forte. É, parece que vai chover mesmo.

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