O fascismo (também) saiu do Facebook

Partidos sitiados no manifesto desta quinta-feira, 20 (Foto: Mídia NINJA)

Partidos sitiados no manifesto desta quinta-feira, 20 (Foto: Mídia NINJA)

Amigos, a massa desandou, o caldeirão transbordou e o caldo entornou. As manifestações contra o aumento das tarifas de ônibus, que começaram com fogo e bombas de gás lacrimogênio no meio da Paulista há duas semanas, estão rumando para acabar de maneira muito mais violenta. Só que uma violência psicológica. E, não, não tem nada a ver com a PM (e nem com os R$ 0,20), antes tivesse.

Exatamente uma semana depois da PM ter barbarizado os manifestantes pela região da Consolação, as pessoas voltaram às ruas para, dessa vez, comemorar a revogação das tarifas.  Numa mistura de hino nacional, bandeiras, caras pintadas de verde e amarelo, apitos, fogos de artíficio (sim, para que? eu não sei muito bem), a “passeata” ocorreu de maneira estranha. Diferente até mesmo das passeatas maiores que haviam ocorrido na segunda e na terça-feira. A pauta do transporte foi esquecida e deu lugar a outras, muitas outras, e assustadoras outras.

Antes de ir até a Paulista  já tive alguma ideia de como a carruagem estava andando nessa passeata. Soube de hostilização a militantes partidários, escutei da sala da redação em que trabalho – que fica na Brigadeiro – vaias que eram voltadas a representantes do PT. Forçaram os partidos a saírem do movimento. Previamente, isso já não me deu vontade alguma de participar disso. Mas, como trabalho por ali, fui forçada a ir para a Paulista para pegar um metrô para casa. O clima era de final de copa do mundo. Muitas pessoas, crianças. Poderia ser bonito, juro, mas estava assustador. Vi de longe uma pessoa carregando uma bandeira, enorme, cujos dizeres mostravam “contra a corrupção”. Sim, dessa forma. Não há maneira menos política de se fazer um manifesto do que bradar contra a corrupção, uma coisa difusa da qual ninguém se diz abertamente a favor, logo, ser contra não é lá algo a se pleitear. Outros, muitos, cartazes tinham dizeres contra Dilma (o que ela fez de errado, na constituição, pra merecer um impeachment? eu não sei muito bem), contra o Lula ( se o Superior Tribunal de Justiça, nossa mais alta instituição da Justiça não achou nada para incriminar ele, por que as pessoas das ruas o querem na cadeia? eu não sei muito bem), contra a Copa (que motivo faz as pessoas a querer parar um evento que já gastou tanto para ser feito um ano antes? eu não sei muito bem).

Tudo isso me deixou nauseada. Liguei para um amigo, relatei o acontecido, desacreditada de que, em apenas sete dias, tudo tinha saído tanto do lugar, que nem parecia o mesmo movimento. Desliguei o telefone, então escutei uma coisa que me chamou atenção. Um garoto com um suéter – tipo cardigã sem botão – vermelho vivo estava na calçada gritando com dois grandalhões, carecas, do outro lado da calçada. “Como vocês tiveram coragem de bater em idosos? Pessoas que lutaram na ditadura?”, gritava o garoto, indignado. Do outro lado da calçada, o perto da rua, um dos grandalhões, de camisa roxa, gritava de volta, enquanto avançava no menino. “Seu petista de merda. Comunista. Vai dar o cu para o PT”, gritou. Vejam bem, o menino estava usando um cardigã vermelho, sem estrelas, sem nada. No que escutei isso, fiquei irritada com dois pontos, esse anti-petismo e a homofobia. E gritei também para os grandalhões “isso é democracia. todo mundo junto. partido também é democracia”. O grandalhão de roxo ficou bravo e, se não fosse pelas pessoas que passavam “”””””alheias”””””” a isso, ele teria chegado ainda mais perto de mim. Avançou muito, me chamou de “vadia petista” (por que insistem em chamar mulher de vadia sempre? eu não sei muito bem), falou umas outras impropriedades. Foi puxado pelo amigo, enquanto eu, que continuava gritando “é democracia, é democracia”, fui puxada pelas pessoas do lado da calçada.

O garoto de vermelho, Andrei, comentou comigo que havia sido hostilizado por esses dois brutamontes por estar usando vermelho. Inconformada com o rumo de tudo, não só desse acontecimento pontual, comecei a conversar com ele e com outras, POUCAS pessoas que estavam contra aquela micareta pseudoengajada em que estávamos. “Me doeu menos sentir o gás lacrimogenio e fugir da PM semana passada do que ver o que tudo se tornou”, falou ele para mim. Não pude deixar de concordar, principalmente com as informações que fui recebendo depois. Um menino chamado Gabriel chegou, com a camisa rasgada. Na camisa os dizeres “sem violência, movimento passe livre”. Ele contou para nós o que aconteceu com os militantes de partidos na passeata: violência e hostilidades abertas. Militantes idosos, de 70 anos, 80 anos, do PC, haviam sido ameaçados. Pessoas gritavam e vaiavam, e ele, no alto dos seus 16 anos, ajudou algumas pessoas a fazer uma corda humana para proteger os militantes, que foram obrigados a se retirar. Enquanto isso, a PM não fazia nada. “A PM mudou de farda, agora está usando a bandeira do Brasil”, foi de Andrei a melhor (porém não mais animadora) frase da noite.

Percebi que as pessoas “de esquerda”, ou que se diziam minimamente partidárias (ou que votam em partidos de esquerda, imagino que muitos psdbistas estavam ali, quebrando bandeiras, mas divago) estavam à margem da manifestação. Um grupo da CUT passou na nossa frente, pareciam acuados e temerosos. Um deles olhava para trás, incessantemente, como se fosse perseguido e mantinha as mãos fixas no braço de uma das garotas, que estava atrás dele. As pessoas do meio da rua estavam alheias a isso. Presas no torpor nacionalista, nas bandeiras e no verde e amarelo. E a estranheza, que tanto tinha questionado ao ler esse texto, bateu direto na minha cabeça e no meu estômago. Os PMS apenas observavam os passantes. Discussões “políticas” podiam ser escutadas em quase toda parte, mas numa superficialidade que beira a ingenuidade.

Junto com a insatisfação irrestrita, a falta de conhecimento pode ser mais do que explosiva, como eu pude testemunhar nessa noite, na Paulista. Pessoas carregavam cartazes contra os “políticos”, como se estes fossem uma entidade sem rosto, nome ou sigla e apenas com uma conta bancária, ou melhor, um saco de dinheiro, uma camisa listrada preta e branca e uma máscara. Não, nem todos os políticos são ladrões e corruptos. O que me assustou (e muito) nesta “passeata” foi a total falta de conhecimento político das pessoas que estavam lá com a certeza de que estavam “mudando o Brasil”. Amigos, para mudar algo é necessário que você, no mínimo, entendam a estrutura desse algo. E, pelo que vi das reações, poucos ali entendiam a estrutura da nossa democracia.

Não entender o funcionamento de uma democracia, rechaçar esse sistema, hostilizar quem pensa diferente e banir partidos não tem cara de gigante acordando para mim. Tem cara é de ditadura acordando. É, amigos, aparentemente ‘a juventude’ saiu do Facebook, o fascismo e as incongruências presentes em fóruns e caixas de comentários de portais/blogs também.

[PS: A quem me acha de extrema esquerda ou vermelinha, bem, sinto-lhes informar, sou centro esquerda. E olhe lá.Ah, se você não sabe o que é centro esquerda, favor, veja aqui]

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14 pensamentos sobre “O fascismo (também) saiu do Facebook

  1. Desculpa, mas tem alguns pontos no seu discurso que necessitam de uma reflexão. Num país onde a consciência critica foi banida através do sistema educacional vigente há décadas, desde o convênio MEC, no golpe de 64, com o EU, e manipulada pela mídia vendida, o povo não pode ser acusado pela sua falta de conhecimento sobre como funciona o sistema democrático e nem ser chamado de fascista. Eu concordo com Gramsci quando afirma que sem partido político não se faz revolução, mas temos que entender que o movimento é político e não partidário. O povo está cansado de ser enganado pela classe política. Depois das ” Diretas Já ” deram oportunidade a vários partidos, seja no executivo, ou no legislativo. Agora é o momento dos partidos recolherem suas bandeiras e fazerem uma reflexão sobre o que eles querem e o que o povo quer.Repensarem seus objetivos fins e os meios que têm utilizado. Fazerem uma faxina e expulsar os corruptos.Acredito, s.m.j., que o recado que está sendo mandado ao expulsarem os manifestantes partidários é que estão cansados dessa “palhaçada”. No meu entender, o movimento está sendo sem siglas e sem “ismos”, de nacionalismo, fascismo, nazismo,comunismo, socialismo,liberalismo, etc…O movimento é de indignação com a classe política. Precisamos nos libertar dos nossos ismos para entender o grito dessa população que está indo as ruas.

  2. Uma merda de texto, de uma pessoa que tem que encaixar tudo que vê em uma gaveta, lotada de conceitos formados previamente e estereotipos. Estava claro que os militantes do pt foram convocados as ruas para enfrentar o ideal apresentado ate hj nas demais passeatas e nao para se unir a eles, da mesma forma os gritos contra a policia nao sao corretos, mas como nao xingar quem vem te agredindo a tanto tempo? Que nao pensa antes de jogar uma bomba em uma pessoa. Vc acha que se na escravidao os negros estivessem lutando nas ruas receberiam bem os brancos, so por uma questao humana? Pessoas tem sentimentos e esses estao bastante feridos ainda, por atos e responsabilidades, tais atos e responsabilidades hj tem uma cara muito mais petista do que o movimento uma cara fascista.

  3. Licença, mas Edna, ela esta falando de violencia por não concordar com a opinião de outra pessoa, isso ja aconteceu históricamente, e sim, tem nome.

    O que é isso que aconteceu nas ruas…? só quem estava la viu, e foi só o que se viu que agente sabe… o que vai mudar ou repercurtir? só com o tempo…

  4. Gustavo, voce esta encaixando o PT dentro de uma gaveta tambem… voce acompanha o que todos os politicos do PT fazem? alem de o que se divulga na internet e meios de comunicação de massa que são sempre dizendo que quem esta no poder é corrupto..?

    Claro que o nosso sistema esta cheio de furos, mas não se compra uma briga se não a conhece por inteira.

  5. Eu so acho que ninguém deveria ir num movimento politico apartidario com a bandeira do seu partido. NINGUEM! Porque no lugar de unir a todo num lugar so, separa o povo entre comuninstras, socialistas, de centro e direita, sabendo que somos tods brasileiros e todos queremos uma so coisa “mobilidade de qualidade”, “saude de qualidade” e “educação de qualidade”, e lutar contra a corrupção é lutar contra a impunidade! Somente nesse ano 70 bilhões foram desviados! Isso não é vago isso é bem especifico!

  6. sem comentários.. como pessoas como você da extrema esquerda acha que o mundo tem q ser do jeito de vocês pseudo intelectuais.. o brasil esta mudando e para melhor não gracas a vocês… e so para lembra desde do começo essas manifestações foram contra essa politica e políticos corruptos que estao afundando o brasil, entaum gostaria que você me explica-se qual a logico de partidários políticos numa manifestação para um brasil melhor ???

  7. É, o texto tá vazio demais.
    Igual a todo o movimento. Sem resposta porque mal a pergunta sabemos.
    A realidade é que existe uma tristeza nos nossos corações. Trabalhadores e esforçados inocentes que assistem diariamente a ostentação e patifaria pela televisão e ainda conseguem forças para serem felizes.
    Tudo tem limite. Violência gera violência, por isso devemos ficar atentos sim, mas coerentes à uma nova realidade. Novos tempos de uma nova história.
    E tem mais. Qualquer um sabe que nem em dia de jogo de futebol pode sair com uma camiseta dessa ou daquela cor, conforme os times que jogam (e suas torcidas cegas de paixão).
    Sair de vermelho num dia desses é dar muita brecha…

  8. eu não costumo responder comentários. mas só vou me ater a questão do vermelho, pq tenho uma boa história pra contar. quando terminou de fazer o projeto do Masp, a Lina Bo Bardi – arquiteta – fez questão de pintar os pilares de vermelho-bombeiro. queria usar o vermelho para mostrar que arquitetura moderna não se fazia só com concreto aparente. quando foi inaugurado, em 1968, porém, o MASP não ostentava os pilares vermelhos. os militares mandaram tirar o vermelho do MASP, por considerar a cor.. subversiva. talvez a Lina também tivesse dando brecha, né?! pense bem antes de dizer uma frase dessas… MUITO BEM. não é de futebol que estamos falando. não é de times. é de ideologias. e de politica.

  9. Por que pessoas de extrema esquerda, como você, não conseguem ver o óbvio? Quem esta protestando é justamente quem votou no PT, filha.

    A juventude não sabe nem o que é fascismo, pelamor. Como antes viam Comunismo em ovo, agora é fascismo em ovo.
    Texto vazio, que reflete o desespero da esquerda ao notar que finalmente as pessoas viram que nem São Paulo, nem o Brasil, nem a PQP melhorou com o domínimo vermelho.

  10. Camila,

    Você não acha que no fundo isso tudo é apenas um grito de “EU NÃO AGUENTO MAIS!”? Independente dos partidos, de direita ou esquerda.
    Esse pessoal que agigantou os protestos do MPL e o descaracterizou não esta lutando por algo, nem contra a Dilma, nem contra Alckmin, Haddad, apenas estão mostrando que não estão satisfeitos.
    Cabe a todos os partidos saberem lidar com isso, sejam eles de direita ou esquerda. Duvido que essas pessoas sejam de ultra-direita, fascistas e bla bla bla.. apenas estão cansados.

    Posso ter votado no PSDB mas ser a favor do passe livre irrestrito, não posso? É isso que as pessoas querem mostrar, que alguns assuntos estão além dos partidos existentes.

    E o principal agravante dessas manifestações é a demora do governo municipal,estadual e federal em adotarem uma postura mais aberta em relação a todos os protestos.

  11. PERFEITO!! Você sabe que de 10, 11 vão te criticar por essa postagem, simplesmente porque não consegue enxergar todo esse ASSUSTADORA, nem sei como chamar!! É impressionante como as pessoas conseguem ser manipuladas até mesmo com a luta pelos direitos… Qd eu realizo postagens alertando sobre o mesmo assunto, é todos contra, porque é PTista, ou pq é alienado, ou é não sei o que… Quando a bombar estourar, vão lembrar de tudo isso e dizer: Haaa vocês estavam certos.

  12. Muito bom o texto. E são assustadores os comentários dos que não aceitam a opinião contrária e te dão toda a razão em ficar alerta com o fato de as manifestações terem descambado. Não por acaso agora são apoiadas pela mídia, enquanto antes eram criminalizadas. Comentários do tipo “todo movimento apartidário deve banir bandeiras de partido” só pode vir de gente, no mpinimo, ingênua, já que apartidarismo não significa anti-partidarismo. Gente assim tem que fazer o seu próprio protesto, e não querer se aproveitar das mobilizações organizadas pra tentar incluir sua pauta fascista com o aval de quem há anos luta por melhorias sociais nas ruas!

  13. Pingback: How a protest demanding better public services became co-opted by the reactionary right | BRASIL COUP WATCH

  14. The citizens of Brazil finally decide to stand up against corruption, price-hikes and social problems and all the author can do is sigh and criticise them for “not being clear enough” on their aims?!

    In a democracy, some people hate the government and some people support the government. It’s normal, it’s not about “socialists” or “fascists”. When you reduce your argument to those lazy terms you lose all credibility. See George Orwell for more information…

    Mass protests are inherently messy, violent and disorganised affairs. The author of this article should spend more time criticising the politicians and billionaires that steal than people on the street trying to bring about change, however misguided they may appear.

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