Sobre Feliciano e a vinda do Papa

Estava com um texto quase completo na minha cabeça sobre a polêmica toda com relação ao Feliciano, a bancada evangélica e o projeto da ‘cura gay’. Então começaram a pipocar mil notícias sobre a vinda do Papa Francisco ao Brasil. Minha atenção se desviou por um tempo e, juro, tinha também quase um texto mental completo comentando a inusitada reportagem do escultor de areia de Copacabana que cobriu a bunda de uma de suas estátuas, uma mulher, por causa da vinda do papa.

Daí pensei bem e achei que faria muito melhor ao mundo – e aos ~meus~ leitores – se compartilhasse algo que mudasse a vida deles. Algo incrível que realmente, realmente, fizesse diferença para eles. E não para perpetuar preconceitos, mesmo que seja para refutá-los.

Por isso, resolvi colocar aqui a receita do bolo de iogurte [de liquidificador!] que a minha mãe faz. Acho que um bolo quente ( = amor) é mesmo a melhor resposta para o ódio, a ira e as hipocrisias que só fanáticos religiosos (e machistas de plantão) trazem. Segue:

[ATENÇÃO: Imagem meramente ilustrativa. o bolo da minha mãe fica mais bonito. só que nunca sobra para tirarem fotos dele!]

Ingredientes:
1 copo de iogurte natural
2 copos [do próprio iogurte] de farinha de trigo
2 copos [do próprio iogurte] de açúcar
4 ovos inteiros
1 colher (sopa) de fermento em pó
1/2 copo [do próprio iogurte] de óleo

Bata bem todos os ingredientes no liqüidificador, deixando o fermento por último. Despeje a massa em uma assadeira redonda, com furo no meio, untada com manteiga e polvilhada com farinha [ou só com manteiga, mesmo]. Leve ao forno pré-aquecido até assar. Tire o bolo da forma e polvilhe açúcar e canela a gosto como cobertura.

Ah, e não esqueçam de lavar a louça no final. Forma caráter.

Entre duas filas

Hora do almoço na Paulista. Filas se duplicam cada caixa do McDonalds: uma para quem vai fazer o pedido, do lado esquerdo,  outra para quem vai pegar o lanche, do lado direito.  Com um casaco de moletom listrado, jeans e um cabelo “tipo cuia” escuro, um garoto de mais ou menos nove anos espera seu sanduíche ao lado da mãe, eles são os segundos da fila.

Uma garota mais ou menos com seus nove anos, com um vestido de gola alta vermelho escuro e cabelo castanho comprido, também espera junto de sua mãe e irmã menor, só que para pagar. A garota olha para o garoto e, com uma expressão espantada, cochicha nos ouvidos da irmã menor. Ambas saem do lado da mãe e vão verificar direito quem é o menino do outro lado da fila.

As duas voltam, a mãe, curiosa, pergunta o que aconteceu. A garota mais velha, estimulada pelos risos frenéticos da irmã menor, responde que um garoto “da escola dela” está na fila do lado. Sem perceber o rosto risonho da menor, a mãe questiona, em voz altíssima: “por que você não vai dar oi para ele?”. Os movimentos que se seguem são simultâneos: a menina pequena ri alto, a maior diz não e se esconde atrás das pernas da mãe (quem nunca quis se esconder, ou de fato, se escondeu atrás das pernas da mãe/vó/tia depois de ver uma  paixonite, que atire a primeira pedra!) .

O garoto parece não ter percebido toda essa movimentação. Sua atenção se alterna entre o jogo no smartphone da mãe e o balcão de lanches. Eles já são os primeiros da fila, mas, por causa do movimento, há muita espera pelo lanche.

Ainda acanhada, a garota vai até o balcão, do outro lado, para ajudar a irmã a escolher o brinde do McLanche Feliz (um brinquedo em forma de minion, do filme “Meu Malvado Favorito 2”). A mãe continua no segundo lugar da fila para pagar. Enquanto a irmã menor escolhe, animada, qual minion quer, a garota descansa a cabeça no balcão. Ela suspira e olha para a direita, em direção ao menino. A garota pode não falar, mas é possível escutar um “me olha, por favor, me olha” emanando dela.

Depois de alguns segundos nessa posição, ela desiste e volta para o lado da mãe, com a irmã a tiracolo. Quando a garota  – e sua mãe – chega no primeiro lugar da fila, a atendente do McDonalds chama atenção para um lanche pronto, é o do garoto – que também pediu um McLanche Feliz. A mãe do menino pega a bandeja, ele olha para o lado e reconhece a garota.

Ele diz oi e faz um pequeno aceno com a cabeça. Ela dá um sorriso meio envergonhado, meio feliz, acena com a mão e também diz oi. Quando ela olha para frente, para mostrar qual brinde ela escolheu, o garoto vai embora com a sua mãe. Um pouco antes de sair do lado das filas, dá para perceber um par de bochechas vermelhas no menino.

Ah, o amor não escolhe mesmo idade.