Cozinha, a última fronteira do feminismo. Ou seria a primeira?

Quando me mudei para São Paulo, morei em um tipo de “república feminina”.Éramos em cinco meninas. Ainda moro com uma dessas garotas até hoje, inclusive. Outras vieram, chegamos a morar em três, em seis. Sempre mulheres. Sempre mulheres que trabalham. Sempre mulheres que trabalham e estudam – seja na graduação, pós ou nos mais diversificados cursos (de produção até aulas sobre arte contemporânea). Com recém-completos 18 anos, era uma menina quando cheguei na cidade e saí da casa dos meus pais, local onde quase sempre a responsável pela organização, alimentação e limpeza era a minha mãe – apesar de ter anos em que ela trabalhava “fora de casa” entre 12 -13 horas por dia.

(Gostaria de fazer um adendo aqui sobre a minha mãe. Mulher fortíssima, ela trabalha desde não sei que idade e sempre fez questão de ter o próprio dinheiro. Até hoje, ela e meu pai não têm uma conta conjunta, eles dividem, na maneira do possível, as contas de casa.  Ela nunca gostou de ter que pedir dinheiro para ele, não para comprar as coisas que são dela. Considero ela um bom modelo feminino para mim, pelo menos nesse ponto, de mulher que conseguiu sair de uma condição adversa sem precisar de um homem. Mesmo assim, com toda essa postura de chefe da casa, ela ainda é a responsável pela limpeza, arrumação e culinária “do lar”. Meu pai ajuda, mas não divide as tarefas domésticas. Minha avó, cuja história já contei por aqui, também tinha uma personalidade forte, casou-se tarde para a época e quis trabalhar fora de casa. E, adivinhem só, cuidava dos afazeres da casa. Os tempos eram outros, não?!)

Voltemos à história, pois vim morar em São Paulo nova de tudo. Fazia pouca ideia do que tinha que ser feito dentro de uma cozinha, por exemplo. Não tinha ideia quais produtos misturar para limpar o chão direito, era água e detergente? Desinfetante e removedor? Lavar roupa estava naqueles mistérios bem misteriosos. Com o tempo, peguei o jeito. Em menos de um ano, já conseguia me aventurar na cozinha e lavar algumas peças de roupa. “É normal”, disseram-me. Imaginei que fosse, até perceber que muitos amigos meus não tiveram o mesmo tipo de aprendizado em suas repúblicas. Nem mesmo o meu pai, que morou durante anos em república, passou por essa mesma curva de aprendizagem nos afazeres domésticos.

Em repúblicas masculinas é “normal” ter uma diarista, empregada ou faxineira. Veja bem, faço a comparação a partir de colegas e amigos na mesma situação monetária que a minha. Pessoas que estagiavam, estudavam e tudo mais. Isso me deixou intrigada, de verdade. O que eu achava uma obrigação, para muitos garotos, era apenas uma simples tarefa mundana que poderia ser passado para uma mulher fazer. Nesse meio tempo, mais ou menos um ano e meio desde que me mudei, a minha “república” começou a se desfazer e se tornar muito mais um apartamento dividido entre amigas. Começamos a ficar realmente sem tempo e a perceber que nossos finais de semanas ficavam muito comprometidos com faxinas mil. Pensamos bem, pesamos na balança monetária e, bem, conseguimos contratar uma diarista para um final de semana por mês – ou algo assim, não me lembro se era uma frequencia de 2 ou 3 vezes, mas não eram todos os finais de semana, muito menos todos os dias.

A primeira coisa que escutei da minha família ao comentar que estávamos procurando uma diarista foi : “mas você mora com meninas, por que precisa de uma diarista? vocês não sabem limpar?”. A questão era seguida de uma risadinha ou de uma inconformidade mesmo. Como assim, quatro garotas (quanto éramos na época) precisam de uma empregada?! Como se eu e as minhas companheiras de apartamento fossemos menos mulheres porque “nos recusávamos” a fazer essa tarefa.

Nesse meio tempo, um primo meu passou em uma universidade federal e também foi morar numa república masculina. Ninguém questionou sobre o asseio do lugar e eu não me espantei quando descobri que existia, sim, uma diarista. Afinal, os homens não podem ficar perdendo tempo com essa coisa de limpar casa, né?!

Em tempo, algumas diaristas com quem converso se dizem espantadas quando chegam em casas limpas e arrumadas de homens, elogiam os garotos. E ficam igualmente espantadas quando encontram apartamentos bagunçados e sujos habitados por mulheres.

Já cansei de escutar brincadeiras, dentro e fora da minha família, sobre como certos homens merecem parabéns porque sabem lavar uma louça. (Puxa, parabéns, colega, você sabe passar sabão em um bando de pratos/copos e enxaguar. que dificil!) Ou porque sabem dobrar roupas (!). Ou, até mesmo, porque “gostam de cozinhar”.

Por que conto tudo isso para vocês? Bem, acabo de ler um estudo que imaginava ser de agora, mas é de alguns meses atrás. De acordo com o Data Popular, numa pesquisa feita para o site “Tempo de Mulher”, para 50% dos homens brasileiros, cuidar da casa é um papel da mulher. Numa outra pesquisa, feita pelo mesmo instituto para o mesmo site, 42% dos homens afirmaram que não respeitariam homens que escolhessem largar a carreira para cuidar da casa. Para 44% dos homens, tal escolha seria uma vergonha. No entanto, para 78% deles, se uma mulher fizer o mesmo, ela merece o respeito. Ou seja, o brasileiro até acredita que a mulher pode sair, ganhar o próprio dinheiro, pagar as próprias contas, ser a “chefe do lar” mas, no frigir dos ovos, ele crê que o lugar dela é mesmo na cozinha.