o SPAM mais criativo da história

Como jornalista que cobre a área econômica – principalmente o setor bancário e a área de TI escrevo sobre a prática do phishing pelo menos uma vez por semana. Sobre hackers e tentativas de roubos online então, nossa, a conta ultrapassa os 5 por semana.

Por isso, e porque sou uma curiosa incurável, sempre presto atenção nas mensagens de SPAM. Acho muito engraçado a maneira com que recebo, no meu email pessoal, mensagens de bancos dos quais não sou correntista me avisando de “um problema com a sua senha/cadastro” ou, até mesmo, promoções para eu aumentar membros do meu corpo os quais não possuo. Sem contar que, cara, existem muitos erros ortográficos bizarros nesses emails pretensamente oficiais.

Dessa vez, recebi no meu email corporativo uma dessas mensagens que podem ser consideradas como um pulo para o phishing ou pelo menos para um hacker descobrir algumas das minhas informações. De tão incrível e mirabolante, vou reproduzir abaixo o email, com meus comentários em itálico, lógico.

“Bom dia,

Meu nome é o Sr. Moisés um funcionário auditoria financeira Banco Accra Ghana (cidade do banco existe, o banco? não, mas tudo bem. Ah, e por que, raios, alguém se apresentaria como Sr. PRIMEIRO NOME, eu não sei). Preciso de sua ajuda, porque não há necessidade de um parceiro estrangeiro neste negócio, é por isso que eu estou entrando em contato. No meu departamento descobriu uma soma abandonada de 5,5 milhões de Euros (5.500.000 Euros) , em uma conta que pertence a um dos nossos clientes estrangeiros tarde Engenheiro Fernando A.  um brasileiro que, infelizmente, perdeu a vida em um jato comercial companhias aéreas TAM caiu em São Paulo, terça-feira, julho 17,2007 e pegou fogo depois de derrapar fora de uma pista e barril em uma estrada movimentada (ah, ok, então tinha 5,5 mi de euros no banco, sem ninguém mexer, por seis anos, e ninguém fez nada com eles? ok. acreditaria nisso caso, sei lá, não entendesse como os bancos funcionam).

Todas as 176 pessoas a bordo podem ter morrido no que seria pior desastre aéreo do Brasil, e pelo menos 15 foram mortos no chão. Você pode ler mais sobre o acidente por visitar este site que tenho durante a minha pesquisa, por favor, tente ir através do site.http://chinadaily.com.cn/world/2007-07/18/content_5438453.htm [1] [2] … http://www.washingtonpost.com/wp-srv/photo/gallery/070718/GAL-07Jul18-81

(sacana é usar sites e uma notícia verdadeira. e muito triste para inventar uma história, mas é outro o caso)

Uma vez que temos informações sobre a sua morte, nós estávamos esperando por seus familiares ou parentes para vir (sic) e reclamar o seu dinheiro, porque não podemos liberá-lo a menos que alguém se aplica para ele como parente mais próximo ou relação com o falecido, como indicado em nossas diretrizes bancárias.

Primeiro vou transferir e depositar € 2,5 milhões de euros na sua conta bancária antes do resto de € 3 milhões de euros que eu planejo para a transferência para sua conta bancária como parente mais próximo à tarde Engenheiro Fernando A.(ah, de fato, exite um Fernando Antonio que é engenheiro E morreu durante o desastre da TAM. o coitado deixou duas filhas, lá no RS. )
Por isso, eu procuro o seu consentimento para apresentá-lo aqui como o parente mais próximo do falecido (você conhece algum Fernando A.? Pois é, nem eu. Mesmo se acreditasse em toda a história, me recusaria a receber a grana de alguem que nunca vi na vida como se fosse a sua parente) , pois você está em vantagem para receber esse dinheiro e também um estrangeiro também. Vou lhe dar mais detalhes quando eu receber a sua resposta.

Obrigado e aguardando sua resposta urgente.

Atenciosamente,
Sr. Moisés.

O que deveria responder para ele?

Sobre Feliciano e a vinda do Papa

Estava com um texto quase completo na minha cabeça sobre a polêmica toda com relação ao Feliciano, a bancada evangélica e o projeto da ‘cura gay’. Então começaram a pipocar mil notícias sobre a vinda do Papa Francisco ao Brasil. Minha atenção se desviou por um tempo e, juro, tinha também quase um texto mental completo comentando a inusitada reportagem do escultor de areia de Copacabana que cobriu a bunda de uma de suas estátuas, uma mulher, por causa da vinda do papa.

Daí pensei bem e achei que faria muito melhor ao mundo – e aos ~meus~ leitores – se compartilhasse algo que mudasse a vida deles. Algo incrível que realmente, realmente, fizesse diferença para eles. E não para perpetuar preconceitos, mesmo que seja para refutá-los.

Por isso, resolvi colocar aqui a receita do bolo de iogurte [de liquidificador!] que a minha mãe faz. Acho que um bolo quente ( = amor) é mesmo a melhor resposta para o ódio, a ira e as hipocrisias que só fanáticos religiosos (e machistas de plantão) trazem. Segue:

[ATENÇÃO: Imagem meramente ilustrativa. o bolo da minha mãe fica mais bonito. só que nunca sobra para tirarem fotos dele!]

Ingredientes:
1 copo de iogurte natural
2 copos [do próprio iogurte] de farinha de trigo
2 copos [do próprio iogurte] de açúcar
4 ovos inteiros
1 colher (sopa) de fermento em pó
1/2 copo [do próprio iogurte] de óleo

Bata bem todos os ingredientes no liqüidificador, deixando o fermento por último. Despeje a massa em uma assadeira redonda, com furo no meio, untada com manteiga e polvilhada com farinha [ou só com manteiga, mesmo]. Leve ao forno pré-aquecido até assar. Tire o bolo da forma e polvilhe açúcar e canela a gosto como cobertura.

Ah, e não esqueçam de lavar a louça no final. Forma caráter.

Entre duas filas

Hora do almoço na Paulista. Filas se duplicam cada caixa do McDonalds: uma para quem vai fazer o pedido, do lado esquerdo,  outra para quem vai pegar o lanche, do lado direito.  Com um casaco de moletom listrado, jeans e um cabelo “tipo cuia” escuro, um garoto de mais ou menos nove anos espera seu sanduíche ao lado da mãe, eles são os segundos da fila.

Uma garota mais ou menos com seus nove anos, com um vestido de gola alta vermelho escuro e cabelo castanho comprido, também espera junto de sua mãe e irmã menor, só que para pagar. A garota olha para o garoto e, com uma expressão espantada, cochicha nos ouvidos da irmã menor. Ambas saem do lado da mãe e vão verificar direito quem é o menino do outro lado da fila.

As duas voltam, a mãe, curiosa, pergunta o que aconteceu. A garota mais velha, estimulada pelos risos frenéticos da irmã menor, responde que um garoto “da escola dela” está na fila do lado. Sem perceber o rosto risonho da menor, a mãe questiona, em voz altíssima: “por que você não vai dar oi para ele?”. Os movimentos que se seguem são simultâneos: a menina pequena ri alto, a maior diz não e se esconde atrás das pernas da mãe (quem nunca quis se esconder, ou de fato, se escondeu atrás das pernas da mãe/vó/tia depois de ver uma  paixonite, que atire a primeira pedra!) .

O garoto parece não ter percebido toda essa movimentação. Sua atenção se alterna entre o jogo no smartphone da mãe e o balcão de lanches. Eles já são os primeiros da fila, mas, por causa do movimento, há muita espera pelo lanche.

Ainda acanhada, a garota vai até o balcão, do outro lado, para ajudar a irmã a escolher o brinde do McLanche Feliz (um brinquedo em forma de minion, do filme “Meu Malvado Favorito 2”). A mãe continua no segundo lugar da fila para pagar. Enquanto a irmã menor escolhe, animada, qual minion quer, a garota descansa a cabeça no balcão. Ela suspira e olha para a direita, em direção ao menino. A garota pode não falar, mas é possível escutar um “me olha, por favor, me olha” emanando dela.

Depois de alguns segundos nessa posição, ela desiste e volta para o lado da mãe, com a irmã a tiracolo. Quando a garota  – e sua mãe – chega no primeiro lugar da fila, a atendente do McDonalds chama atenção para um lanche pronto, é o do garoto – que também pediu um McLanche Feliz. A mãe do menino pega a bandeja, ele olha para o lado e reconhece a garota.

Ele diz oi e faz um pequeno aceno com a cabeça. Ela dá um sorriso meio envergonhado, meio feliz, acena com a mão e também diz oi. Quando ela olha para frente, para mostrar qual brinde ela escolheu, o garoto vai embora com a sua mãe. Um pouco antes de sair do lado das filas, dá para perceber um par de bochechas vermelhas no menino.

Ah, o amor não escolhe mesmo idade.

O fascismo (também) saiu do Facebook

Partidos sitiados no manifesto desta quinta-feira, 20 (Foto: Mídia NINJA)

Partidos sitiados no manifesto desta quinta-feira, 20 (Foto: Mídia NINJA)

Amigos, a massa desandou, o caldeirão transbordou e o caldo entornou. As manifestações contra o aumento das tarifas de ônibus, que começaram com fogo e bombas de gás lacrimogênio no meio da Paulista há duas semanas, estão rumando para acabar de maneira muito mais violenta. Só que uma violência psicológica. E, não, não tem nada a ver com a PM (e nem com os R$ 0,20), antes tivesse.

Exatamente uma semana depois da PM ter barbarizado os manifestantes pela região da Consolação, as pessoas voltaram às ruas para, dessa vez, comemorar a revogação das tarifas.  Numa mistura de hino nacional, bandeiras, caras pintadas de verde e amarelo, apitos, fogos de artíficio (sim, para que? eu não sei muito bem), a “passeata” ocorreu de maneira estranha. Diferente até mesmo das passeatas maiores que haviam ocorrido na segunda e na terça-feira. A pauta do transporte foi esquecida e deu lugar a outras, muitas outras, e assustadoras outras.

Antes de ir até a Paulista  já tive alguma ideia de como a carruagem estava andando nessa passeata. Soube de hostilização a militantes partidários, escutei da sala da redação em que trabalho – que fica na Brigadeiro – vaias que eram voltadas a representantes do PT. Forçaram os partidos a saírem do movimento. Previamente, isso já não me deu vontade alguma de participar disso. Mas, como trabalho por ali, fui forçada a ir para a Paulista para pegar um metrô para casa. O clima era de final de copa do mundo. Muitas pessoas, crianças. Poderia ser bonito, juro, mas estava assustador. Vi de longe uma pessoa carregando uma bandeira, enorme, cujos dizeres mostravam “contra a corrupção”. Sim, dessa forma. Não há maneira menos política de se fazer um manifesto do que bradar contra a corrupção, uma coisa difusa da qual ninguém se diz abertamente a favor, logo, ser contra não é lá algo a se pleitear. Outros, muitos, cartazes tinham dizeres contra Dilma (o que ela fez de errado, na constituição, pra merecer um impeachment? eu não sei muito bem), contra o Lula ( se o Superior Tribunal de Justiça, nossa mais alta instituição da Justiça não achou nada para incriminar ele, por que as pessoas das ruas o querem na cadeia? eu não sei muito bem), contra a Copa (que motivo faz as pessoas a querer parar um evento que já gastou tanto para ser feito um ano antes? eu não sei muito bem).

Tudo isso me deixou nauseada. Liguei para um amigo, relatei o acontecido, desacreditada de que, em apenas sete dias, tudo tinha saído tanto do lugar, que nem parecia o mesmo movimento. Desliguei o telefone, então escutei uma coisa que me chamou atenção. Um garoto com um suéter – tipo cardigã sem botão – vermelho vivo estava na calçada gritando com dois grandalhões, carecas, do outro lado da calçada. “Como vocês tiveram coragem de bater em idosos? Pessoas que lutaram na ditadura?”, gritava o garoto, indignado. Do outro lado da calçada, o perto da rua, um dos grandalhões, de camisa roxa, gritava de volta, enquanto avançava no menino. “Seu petista de merda. Comunista. Vai dar o cu para o PT”, gritou. Vejam bem, o menino estava usando um cardigã vermelho, sem estrelas, sem nada. No que escutei isso, fiquei irritada com dois pontos, esse anti-petismo e a homofobia. E gritei também para os grandalhões “isso é democracia. todo mundo junto. partido também é democracia”. O grandalhão de roxo ficou bravo e, se não fosse pelas pessoas que passavam “”””””alheias”””””” a isso, ele teria chegado ainda mais perto de mim. Avançou muito, me chamou de “vadia petista” (por que insistem em chamar mulher de vadia sempre? eu não sei muito bem), falou umas outras impropriedades. Foi puxado pelo amigo, enquanto eu, que continuava gritando “é democracia, é democracia”, fui puxada pelas pessoas do lado da calçada.

O garoto de vermelho, Andrei, comentou comigo que havia sido hostilizado por esses dois brutamontes por estar usando vermelho. Inconformada com o rumo de tudo, não só desse acontecimento pontual, comecei a conversar com ele e com outras, POUCAS pessoas que estavam contra aquela micareta pseudoengajada em que estávamos. “Me doeu menos sentir o gás lacrimogenio e fugir da PM semana passada do que ver o que tudo se tornou”, falou ele para mim. Não pude deixar de concordar, principalmente com as informações que fui recebendo depois. Um menino chamado Gabriel chegou, com a camisa rasgada. Na camisa os dizeres “sem violência, movimento passe livre”. Ele contou para nós o que aconteceu com os militantes de partidos na passeata: violência e hostilidades abertas. Militantes idosos, de 70 anos, 80 anos, do PC, haviam sido ameaçados. Pessoas gritavam e vaiavam, e ele, no alto dos seus 16 anos, ajudou algumas pessoas a fazer uma corda humana para proteger os militantes, que foram obrigados a se retirar. Enquanto isso, a PM não fazia nada. “A PM mudou de farda, agora está usando a bandeira do Brasil”, foi de Andrei a melhor (porém não mais animadora) frase da noite.

Percebi que as pessoas “de esquerda”, ou que se diziam minimamente partidárias (ou que votam em partidos de esquerda, imagino que muitos psdbistas estavam ali, quebrando bandeiras, mas divago) estavam à margem da manifestação. Um grupo da CUT passou na nossa frente, pareciam acuados e temerosos. Um deles olhava para trás, incessantemente, como se fosse perseguido e mantinha as mãos fixas no braço de uma das garotas, que estava atrás dele. As pessoas do meio da rua estavam alheias a isso. Presas no torpor nacionalista, nas bandeiras e no verde e amarelo. E a estranheza, que tanto tinha questionado ao ler esse texto, bateu direto na minha cabeça e no meu estômago. Os PMS apenas observavam os passantes. Discussões “políticas” podiam ser escutadas em quase toda parte, mas numa superficialidade que beira a ingenuidade.

Junto com a insatisfação irrestrita, a falta de conhecimento pode ser mais do que explosiva, como eu pude testemunhar nessa noite, na Paulista. Pessoas carregavam cartazes contra os “políticos”, como se estes fossem uma entidade sem rosto, nome ou sigla e apenas com uma conta bancária, ou melhor, um saco de dinheiro, uma camisa listrada preta e branca e uma máscara. Não, nem todos os políticos são ladrões e corruptos. O que me assustou (e muito) nesta “passeata” foi a total falta de conhecimento político das pessoas que estavam lá com a certeza de que estavam “mudando o Brasil”. Amigos, para mudar algo é necessário que você, no mínimo, entendam a estrutura desse algo. E, pelo que vi das reações, poucos ali entendiam a estrutura da nossa democracia.

Não entender o funcionamento de uma democracia, rechaçar esse sistema, hostilizar quem pensa diferente e banir partidos não tem cara de gigante acordando para mim. Tem cara é de ditadura acordando. É, amigos, aparentemente ‘a juventude’ saiu do Facebook, o fascismo e as incongruências presentes em fóruns e caixas de comentários de portais/blogs também.

[PS: A quem me acha de extrema esquerda ou vermelinha, bem, sinto-lhes informar, sou centro esquerda. E olhe lá.Ah, se você não sabe o que é centro esquerda, favor, veja aqui]

Abercrombie & Fitch é aqui

Chupa A&F!

Tudo é escrito a tinta na internet. Fato. Nas últimas semanas, uma entrevista que Mike Jeffries, CEO da marca coxinha Abercrombie & Fitch, deu em 2006 voltou a ser comentada. Nela, Jeffries afirma com todas as letras que não quer pessoas “gordas” e “não-legais” usando a sua marca. Sete anos depois, a A&F deixou de vender os tamanhos XG e XXG e a polêmica se instaurou.

Não quero comentar o tamanho da babaquice que foi uma empresa negar um bom número de consumidores em potencial apenas em nome do “cool”. De qualquer forma, fiquei um pouco espantado quando vi uma galera aqui do Brasil alimentando essa polêmica. Isto porque, bem, grande parte das marcas (falaria 99%, mas me faltam dados empíricos) brasileiras fazem isso.

Qualquer pessoa, mulher principalmente, que use tamanhos acima de 46 sabe do que estou falando. Estou falando sobre aquela sensação ótima de vergonha que se tem ao entrar numa loja de roupas e já receber aquele olhar da vendedora, ou palavras mesmo (incontáveis vezes já escutei um sonoríssimo ‘para você, não tem roupa aqui’, seguido de um olhar de baixo a cima). Ou aquela sensação levemente desesperadora de entrar em quatro, cinco lojas seguidas e nenhuma delas ter algo perto do seu tamanho. Ou aquela frustração básica ao experimentar uma calça do seu tamanho, com uma modelagem menor. Ou, até mesmo, entrar em uma grande loja de departamento e ter que se contentar com a arara dos chamados, ahn, “tamanhos especiais” (acho uma gentileza quando chamam mais de 50% da população brasileira, que está acima do peso, de especiais, mas divago).

Essas sensações todas acontecem por um motivo que chega a ser óbvio: as marcas não produzem roupas de tamanhos maiores. Quando produzem, é em uma escala tão pequena, que acabam rápido. Ou então, quando produzem, não são do tamanho correto. E, antes que me falem que estou falando apenas a partir de um ponto pessoal, indico esta reportagem da Folha. Segundo um estudo do Senai Cetiqt, 64,4% das mulheres do Sudeste têm, em média, 97,1 cm de busto, 85,4 cm de cintura e 102,1 cm de quadril. Para elas, os tamanhos que usam estão, em média, 10 cm inadequados.  “As brasileiras são maiores do que as marcas ‘de ponta’ acreditam. A maioria delas é corpulenta e usa tamanhos entre 42 e 46″, afirmou o coordenador do estudo à Folha.

Amigos, o CEO da A&F só declarou aquilo que já passa pela cabeça das muitas outras grifes de moda, de Channel à C&A. Foi cruel? Pra caralho. (E nem um pouco real) Mas é assim que a ditadura da beleza, ou melhor dizer, o mercado da ‘beleza” age: estabelece uma padronização a partir de um modelo impossível e o consumidor que se vire para atingi-lo.

[quem ilustra este post é a foto da modelo Jes Baker, que fez uma carta aberta contra a A&F em seu blog. Achei LINDO]

PS: Entrei na tabela de tamanhos da Abercrombie & Fitch, só por curiosidade. Enquanto as roupas femininas tem o  ‘L’ (Large, ou G, no Brasil) como maior opção de tamanho; as roupas masculinas têm até o ‘XXL’ (XXG) e XL (XG), no caso das calças. Aparentemente, Jeffries só não quer mulheres gordas usando a sua marca.

PS2: Nunca achei a A&F aquela coca-cola toda. Na verdade, o Fitch escrito nas camisetas dessa grife sempre me remeteram à agência de classificação de riscos Fitch, e, na real, não acho nada cool andar com uma coisa dessas escrita em meu peito. Mas, enfim, sou eu, né?

Tchau, Neymar!

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Neymar chora no começo de sua última partida no Santos

(ATENÇÃO: A autora do post herdou de seu pai , de sua avó , de sua família- e de sua cidade – um amor incondicional pelo Santos Futebol Clube. Acho bom sempre avisar antes.)

Neymar chorou ao escutar o hino nacional no seu último jogo com a camisa do Santos. E eu chorei com ele. Então o menino se foi. Finalmente, alguns dizem. E deixa para trás uma tristeza para o Santos. E, porque não, para o futebol brasileiro.

Não vou falar de dribles, de jogadas, de golaços. Nem de títulos. Acho que os muitos jornais e comentaristas esportivos de futebol já colocaram isso tudo muito bem. Também não quero comentar sobre as inúmeras, e nem sempre acertivas, campanhas publicitárias estreladas por ele, o menino de ouro da Vila Belmiro.

O Santos perde, e muito, porque vê indo embora um garoto que jogava no time para qual torcia. Um detalhe que faz muita diferença nos momentos de hoje. Esse fator criava uma motivação fora de série, mesmo em jogos ruins, era difícil ver o Neymar sem vontade. E, cara, nada mais incrível do que ver um jogador do seu time jogando com muita vontade.

Colocado de lado por Luxemburgo, que em 2009 chamava o  garoto de “filé de borboleta”. o menino chamou atenção com o Santos de 2010 ao protagonizar partidas com placares inimagináveis. Talvez, pensei eu, ele seja mesmo um craque. Como santista, vê-lo em campo me dava mais confiança. Quando estava num dia inspirado então, sai de baixo que o Neymar é nosso. Todos o queriam fora do País em 2011, e ele, junto do Santos, escolheu ficar.

“Por dinheiro”, muitos falam. Mas não só por isso. Ele escolheu ficar porque, pasmem, ele gostava do [e de] Santos e do Brasil. Ele gostava de jogar no time dele, gostava de morar onde ele morava e viu possibilidades de explorar esse ambiente de forma financeira, o que tornava o acordo europeu bastante desvantajoso, mesmo que muito lucrativo (e em euros).

Devo confessar, por uns meses, achei que a escolha dele fosse forçar uma melhora do futebol brasileiro como um todo. Achei, de maneira muito emotiva, que o fato dele ter batido o pé para continuar na Vila Belmiro fosse chamar atenção de outros jogadores, que deixariam de aceitar contratos insanos em times sem expressividade apenas pelo montante de dinheiro. Achei que estes garotos começariam a perceber que há, sim, caminhos dentro do futebol brasileiro, mesmo que não muito rentáveis, mas proveitosos de outra maneira. O fato do Neymar ter ficado no Santos mostraria para eles, sonhava eu, que ser venerado por uma torcida e ter uma boa união de equipe poderiam bastar.

Achei, também,que os cartolas também pensariam melhor na hora de colocar seus melhores jogadores no mercado, como produtos em uma vitrine de luxo. A utopia, como sabemos, não aconteceu. Nos anos seguintes à sua escolha, as vozes dos “entendidos” ecoavaM cada vez mais fortSe: Neymar precisa sair para ser o melhor do mundo. Precisa. Precisa. Precisa. E cada jogo pelo Santos, para esta galera, significava que ele estava mais longe do tão sonhado troféu da Fifa. Quem me dera fosse diferente, mas não foi.

Então o acordo foi fechado. E aquela utopia que eu sonhei, talvez, ainda possa acontecer. Afinal, até na sua saída o garoto ensinou alguma coisa para os seus parceiros: optou pelo time que paga menos, porém, o que ele sonha em jogar. Num momento em que o futebol vira este negócio com cifras enlouquecedoras, dignas de operações entre empresas, o menino da Vila optou pelo Camp Nou em detrimento ao Bernabeu.

O menino, minha gente, ama ser jogador de futebol. Ama mais jogar futebol do que ganhar dinheiro. Diferente de milhares que também amam, ele deu certo naquilo que ama. E é isso, no final de contas, que vai fazer falta. MUITA falta, para o meu time e, talvez, para os outros.

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Tchau, menino. Valeu pelo amor à camisa do time que eu – e mais outras milhares de pessoas – também amam

Porque o discurso do Joaquim Ferreira contra a Piovani não me pegou

Então um colunista critica um programa de beleza. A apresentadora deste mesmo programa rebate. E, como uma boa discussão midiática, isso vai parar no jornal com uma “bela” resposta do próprio colunista. Ou é assim que tentam pintar. Para mim, o caso Joaquim Ferreira vs Luana Piovanni (se não sabe do que estou falando, leia aqui) mostra uma faceta que muito me incomoda quando a discussão toca os padrões de beleza.

Como mulher que, claramente, não se encaixa nesses malditos padrões de beleza (e não por falta de tentativas), sinto meu ego inflado quando leio outras pessoas falando que estes mesmos padrões estão errados. Acho que é um acalento, é quase como saber que não estou sozinha no mundo. Do lado emocional, leio um texto desse e penso “puxa, então não to ficando maluca”. Mas, como mulher, apenas mulher, tenho que começar a questionar isso. Por que que, raios, a minha beleza está veiculada ao olhar de um homem que nem conheço? Gorda ou magra, com o cabelo curto ou comprido, com ou sem maquiagem, com ou sem decote, com ou sem salto,  é fato, vai ter sempre alguém que vai reprovar. SEMPRE. Agora, por que eu, mulher, devo pautar a minha vida por isso?

O texto superficialmente “elogioso” do Joaquim Ferreira, e que é copiado por muitos homens que se acham feministas e que falam ‘eu gosto de mulher com carne”, ou “prefiro as mulheres mais naturais, odeio maquiagem”, quando visto com profundidade tem um machismo intrínseco. Ao alardear o “não padrão” ele também cria um padrão, como se falasse para as mulheres: “hey, não se preocupa, voce vai ser amada mesmo se for gorda”. Mas, por que eu preciso querer ser amada ou desejada por um homem? Por que fazer disso um objetivo de vida?

Veja bem, não estou querendo dizer que não é bom ser amada ou desejada por um homem. Nem que eu não goste disso. Nem que, às vezes, eu não foque isso em uma pessoa específica. Apenas que, caramba, não dá para fazer disso um objetivo final de vida. O que é muito comum quando se trata do discurso da beleza feminina. Muitas meninas bonitas que eu conheço já escutaram a famosa frase “mas você está estudando para que, afinal, é tão bonita”. Infelizmente, para uma (boa) parte das pessoas a mulher deve almejar ser bonita e desejável para conseguir o sucesso. Um discurso que, nem preciso dizer, não está exatamente em pauta quando se trata de homens, que podem escolher ser vaidosos  ou não.

No final das contas, tanto Joaquim Ferreira quanto a Piovani pisaram no tomate. Isso porque os dois deslocaram o olhar da beleza feminina aos homens, como se conseguir um olhar de aprovação ou uma cantada fossem uma missão na vida de toda mulher. Na minha humilde  opinião, homens e mulheres deveriam ser livres para se acharem lindo/as do jeito que quiserem. A beleza deveria partir da própria pessoa, de uma visão própria de bem estar. Ou melhor, no lugar de falar para a mulher “o que voce deve vestir para atrair um homem”, deveriam dizer “o que voce pode vestir que te faça sentir bem”.

 

P.S.: E, me desculpem os homens, mas parar de citar Vinícius de Moraes é FUNDAMENTAL.