0,5

Meio ponto, quando falamos de matemática, é meio ponto que separa 8,5 de 9. Lógico que não quero pensar nos 1344 milésimos de décimos que tem entre estes números. Mas, é muito mais do que mero meio ponto que separa 8 e 1/2 , de Federido Fellini [meu FeFe], de Nine, de Rob Marshall.

É complicado, para não dizer desleal, comparar qualquer filme com 8 e 1/2, mesmo que o filme em questão tenha, de fato, se amparado na obra prima de FeFe para ser feito. O que temos em Nine é um pouco mais que a transposição linear do roteiro básico de 8 e 1/2, temos a transposição da aura ‘felliniana’ em pequenos – e ás vezes não tão sutis assim [como na cena em que Guido fala com Claudia, é puro La Dolce Vita] – detalhes audiovisuais. Muitos reclamaram, falaram que Nine não estava a altura do filme que tentou retratar, e, para falar a verdade, não está. Isso porque, na minha opinião, nenhum filme está a altura deste de FeFe. No entanto, é um grande preconceito dizer que o musical de Rob Marshall é um filme tão abaixo assim como vem dizendo os críticos.

Difícil viver a sombra de Fellini....

Olha,  antes de fazer qualquer tipo de análise – e aviso desde já que a farei, se não quiser ler algo longo, pare de ler agora, ou cale-se para sempre – preciso fazer um testemunho doloroso: eu odeio versões. Sim, as odeio mais do que gostaria. Como uma pessoa que se acha liberal, e acredita ser tão cabeça aberta, dói-me ter que admitir essa minha falha com relação a versões! Tremo na base toda vez que algum amigo chega para mim e diz ‘Escuta só a versão que  [INSIRA O NOME DA BANDA AQUI] fez da [INSIRA O NOME DA MÚSICA AQUI] dos Beatles’. A minha vontade é gritar ‘Por que, raios, eles precisam fazer uma versão de Beatles? Os Beatles já tocaram a musica perfeitamente. Por que estragar a perfeição??’. Entendo que é interessante colocar um novo ar em algo antigo, fazer uma releitura daquilo que já se fez, só não entendo o porque de fazer isso em coisas que, sozinhas, conseguem se bastar. Se sou assim com música, imagina só com cinema.

Quando li a primeira vez sobre Nine, fiquei na dúvida se queria morrer porque alguém pensou em transformar 8 e 1/2 em musical da Broadway ou se queria matar o ser que quis transpor isso para filme. No final, tanto ódio no meu coração se transformou em uma grande, enorme, torturante curiosidade que me fez assistir ao filme – no cinema! – numa segunda à noite, com um amigo que sei que não morre de amores nem por musicais, nem pelo cinema de FeFe.

No final das contas, o filme quebrou as minhas pernas, venceu todas as minhas barreiras. E posso dizer precisamente em que parte: quando percebi que a coletiva de imprensa com Guido ‘Contini’ [interpretado por um Day-Lewis muito mais ousado e irônico que Mastroianni, prontofalei] remontava a coletiva de imprensa de A Doce Vida, caiu a ficha que o filme era uma ode ao ‘cinema italiano’ [nome, inclusive, da música cantada pela jornalista-da-Vogue-americana AKA Kate Hudson ], uma ode ao cinema italiano de Federico Fellini. Foi quando percebi que Nine não é só uma versão, é um tributo.

FeFe atrás das câmeras, devaneios na frente dela.

A Itália pintada tão doce e surrealmente por FeFe está presente em cada cena de Nine. Do carro de Continni até o pandeirinho estilizado de Saraghina [Fergie!!!], está tudo lá escrito por linhas tortas de um Maestro que não dirigiu o filme. Não é a toa que o filme que Continni faria se chama Italia, não mesmo. FeFe tinha um estilo marcado, em quase todos os seus filmes a Itália aparece como coadjuvante – é o navio de E La Nave Va; a promiscuidade de La Dolce Vita; as brumas de Amancord; o otimismo de Noite de Carbiria;  a explosão de Ensaio de Orquestra – alguns ela é até personagem principal, como em Roma. Isso porque ele se colocava demais em seus filmes, cada um era mostra e recorte de um olhar criativo sobre o lugar em que vivia. Como ele tinha medo de avião [pouco viajou em sua vida], era natural que falasse tanto da Itália!

Continni queria era fazer em Italia o que FeFe fez em todos os seus filmes, por isso fracassou miseravelmente. Nesse ponto, em especial, ele se difere de Anselmi – o ‘verdadeiro’ Guido – que tinha a ânsia de mostrar qualquer coisa nas telas do seu possível filme. Anselmi, como bem apontou o crítico no final de 8 e 1/2, tinha medo da folha em branco, queria preenche-la com qualquer coisa que evitasse o branco, evitasse o vácuo em que vivia. O Guido de 8 e 1/2 tinha medo de perceber o quanto ele se colocava no vazio, mesmo sempre cheio de ideias, ideais e sentimentos. Já o Guido de Nine tinha medo de perceber o quanto era cheio disso tudo, o quanto estava vivo. Anselmi era menos vaidoso e muito mais melancólico que Continni. Por não saber se organizar, Alsemi se afundou na bagunça de seus pensamentos, na bagunça do tudo, no caos do nada. Enquanto Continni foi pra baixo quando organizou seu ‘tudo’. [Continni fez algo que Anselmi não conseguiria fazer: nomear o filme]

É interessante observar esta guinada que ambas personagens tomaram no filme. Embora, a meu ver, o desespero pela falta de ideias e pela pressão sentida pelos diretores ainda seja parecida, essa mudança mostra o quanto o tempo passou desde que o 8 e 1/2 se tornou 9. Uma fala foi suprimida, uma fala crucial para o auto-entendimento de Guido foi suprimida em Nine: Esta confusão sou eu. Eu, como sou, não como quer que eu seja. Continni foi mesmo mais corajoso, porém, foi Anselmi que chegou mais fundo.

É nesse ponto que temos aquilo que todos os críticos falaram tão mal: Nine é superficial. Sinceramente, não acho que seja. Nine é linear, e muitas explicações se perdem quando tentamos mostrar acontecimentos de forma linear. A vida não é linear. Muito menos   o ser humano. Somos tão complexos, que ás vezes somos tudo ao mesmo tempo, somos Anselmi, Continni, Cotillard e Aime. Como explicar alguém multifacetado de maneira linear? Exatamente, não se explica. O que se faz é escolher uma face, e se deter nela.

A face escolhida por Nine é a face profissional de Guido. Ele resolve sua crise existencial da maneira mais confiável e mártir: afasta-se do mundo para achar a sua inspiração em sua própria vida. No fundo, é algo que Anselmi também fez em 8 e 1/2, com o plus de que este Guido repensou seu olhar, assim como FeFe ao escolher filmar de forma tão escancarada a sua intimidade.

Por falar em intimidade, chego a um ponto muito delicado para mim, a personagem Luisa. O amor da vida de Guido, é também quem ele mais feriu com toda a sua crise, com toda a sua indecisão, com toda a sua….confusão. Em 8 e 1/2, a frase que citei uns parágrafos acima, é dita de Anselmi para Luisa.  Ele percebeu que a pessoa que ele era machucava profundamente a mulher que mais amava. Sei que em ambos filmes, Guido aparece na companhia de muitas mulheres, e que são elas que trazem toda a força que impulsiona o diretor [os diretores, para falar a verdade, os dois Guidos, FeFe e Rob Marshall], mas é Luisa quem ele ama. E é ela com quem ele não pode ficar.

9 é o número do filme, mas poderia MTO bem ser 7, as 7 poderosas !

A Luisa de 8 e 1/2 é mais altiva que a de Nine, mas ambas tem o mesmo sofrimento, e o mesmo tipo de beleza clássica. Anouk Aime tinha traços leves como os de Marion Cotillard [ duas atrizes francesas para interpretar o mesmo papel, olha só que estranha ‘coincidência’ ], embora a caracterização de Aime seja menos referente à Holly, de Audrey Hepburn, que a de Cotillard. A Luisa de Nine tem, porém, algo que a de 8 e 1/2 não aparentou ter : o sex appeal.

Entre todas as mulheres que ficam em volta de Guido Anselmi, Luisa é a menos sexy, a menos bonita, a mais sensata. Ela, claramente, é uma outsider no mundo do marido. E ele gosta que ela seja assim. Ele não consegue juntar aquilo que é para o cinema com aquilo que é para ela na sua cabeça, por isso a afasta. Dessa forma, Nine foi perfeito em colocar a música ‘Meu marido faz filmes’ na boca de Luisa. Apesar de ela ser atriz, ela se vê afastada do mundo das artes, ela não pode ficar do lado do marido.

Não consigo exprimir em palavras o quanto me identifico com Luisa. O sofrimento que ela passa, calada, por se sentir rejeitada em vários níveis pelo marido: profissional, pessoal e sexual, é absurdamente tocante, cruel e real. Luisa sabe que o marido a trai, conhece a amante dele e não pode fazer nada a respeito, a não ser brigar com ele, a não ser cortar ainda mais os vínculos que tem com ele. Acho que Nine foi muito mais legal com Luisa que 8 e 1/2, achei muito justo terem colocado ela para fazer a outra canção, aquela em que fala que ele tirou tudo dela.

FeFe não sentia a necessidade de ser explícito, por isso colocou em olhares e cenas aquilo que a Luisa de Nine falou em música e dança.  A Luisa de Nine fez com que Guido se sentisse realmente mal, conseguiu faze-lo perceber que ele estava mesmo no fundo do póço. Algo que, em 8 e 1/2, ficou no papel do crítico. Com essa mudança de eixo, Nine deu mais poder ainda para as mulheres.

a amante e a esposa

Uma das imagens mais conhecidas de 8 e 1/2 é uma em que Guido, de costas, com seu chapéu e de toalha, levanta um chicote contra uma mulher a sua frente. Trata-se da cena do devaneio central de Anselmi, quando ele se vê no meio de uma casa com todas as mulheres de sua vida. Desde sua mãe até uma garçonete bonita que o serviu. Nine remonta isso nas cenas inicial e final, quando as mulheres aparecem, todas, com roupas provocantes, no cenário em que as cenas musicais acontecem.

Be Italian, Fergie na pele da prostituta Saraghina cantou em sua cena musical apoteótica, vermelha e intensa. Be Italian, foi o que os filmes de FeFe gritaram à sociedade europeia em seus devaneios lúcidos sobre o amor, a religião e o ser humano. Acho mesmo que Nine remontou a aura do cinema Felliniano, ou remontou tão bem quanto um musical da Broadway pode remontar, faço coro com o Merten ao achar que FeFe gostaria muito desse filme.

Não sei se gostaria tanto quanto eu gosto dos dele, mas isso é uma outra história….