Entre duas filas

Hora do almoço na Paulista. Filas se duplicam cada caixa do McDonalds: uma para quem vai fazer o pedido, do lado esquerdo,  outra para quem vai pegar o lanche, do lado direito.  Com um casaco de moletom listrado, jeans e um cabelo “tipo cuia” escuro, um garoto de mais ou menos nove anos espera seu sanduíche ao lado da mãe, eles são os segundos da fila.

Uma garota mais ou menos com seus nove anos, com um vestido de gola alta vermelho escuro e cabelo castanho comprido, também espera junto de sua mãe e irmã menor, só que para pagar. A garota olha para o garoto e, com uma expressão espantada, cochicha nos ouvidos da irmã menor. Ambas saem do lado da mãe e vão verificar direito quem é o menino do outro lado da fila.

As duas voltam, a mãe, curiosa, pergunta o que aconteceu. A garota mais velha, estimulada pelos risos frenéticos da irmã menor, responde que um garoto “da escola dela” está na fila do lado. Sem perceber o rosto risonho da menor, a mãe questiona, em voz altíssima: “por que você não vai dar oi para ele?”. Os movimentos que se seguem são simultâneos: a menina pequena ri alto, a maior diz não e se esconde atrás das pernas da mãe (quem nunca quis se esconder, ou de fato, se escondeu atrás das pernas da mãe/vó/tia depois de ver uma  paixonite, que atire a primeira pedra!) .

O garoto parece não ter percebido toda essa movimentação. Sua atenção se alterna entre o jogo no smartphone da mãe e o balcão de lanches. Eles já são os primeiros da fila, mas, por causa do movimento, há muita espera pelo lanche.

Ainda acanhada, a garota vai até o balcão, do outro lado, para ajudar a irmã a escolher o brinde do McLanche Feliz (um brinquedo em forma de minion, do filme “Meu Malvado Favorito 2”). A mãe continua no segundo lugar da fila para pagar. Enquanto a irmã menor escolhe, animada, qual minion quer, a garota descansa a cabeça no balcão. Ela suspira e olha para a direita, em direção ao menino. A garota pode não falar, mas é possível escutar um “me olha, por favor, me olha” emanando dela.

Depois de alguns segundos nessa posição, ela desiste e volta para o lado da mãe, com a irmã a tiracolo. Quando a garota  – e sua mãe – chega no primeiro lugar da fila, a atendente do McDonalds chama atenção para um lanche pronto, é o do garoto – que também pediu um McLanche Feliz. A mãe do menino pega a bandeja, ele olha para o lado e reconhece a garota.

Ele diz oi e faz um pequeno aceno com a cabeça. Ela dá um sorriso meio envergonhado, meio feliz, acena com a mão e também diz oi. Quando ela olha para frente, para mostrar qual brinde ela escolheu, o garoto vai embora com a sua mãe. Um pouco antes de sair do lado das filas, dá para perceber um par de bochechas vermelhas no menino.

Ah, o amor não escolhe mesmo idade.

Tchau, Neymar!

Image

Neymar chora no começo de sua última partida no Santos

(ATENÇÃO: A autora do post herdou de seu pai , de sua avó , de sua família- e de sua cidade – um amor incondicional pelo Santos Futebol Clube. Acho bom sempre avisar antes.)

Neymar chorou ao escutar o hino nacional no seu último jogo com a camisa do Santos. E eu chorei com ele. Então o menino se foi. Finalmente, alguns dizem. E deixa para trás uma tristeza para o Santos. E, porque não, para o futebol brasileiro.

Não vou falar de dribles, de jogadas, de golaços. Nem de títulos. Acho que os muitos jornais e comentaristas esportivos de futebol já colocaram isso tudo muito bem. Também não quero comentar sobre as inúmeras, e nem sempre acertivas, campanhas publicitárias estreladas por ele, o menino de ouro da Vila Belmiro.

O Santos perde, e muito, porque vê indo embora um garoto que jogava no time para qual torcia. Um detalhe que faz muita diferença nos momentos de hoje. Esse fator criava uma motivação fora de série, mesmo em jogos ruins, era difícil ver o Neymar sem vontade. E, cara, nada mais incrível do que ver um jogador do seu time jogando com muita vontade.

Colocado de lado por Luxemburgo, que em 2009 chamava o  garoto de “filé de borboleta”. o menino chamou atenção com o Santos de 2010 ao protagonizar partidas com placares inimagináveis. Talvez, pensei eu, ele seja mesmo um craque. Como santista, vê-lo em campo me dava mais confiança. Quando estava num dia inspirado então, sai de baixo que o Neymar é nosso. Todos o queriam fora do País em 2011, e ele, junto do Santos, escolheu ficar.

“Por dinheiro”, muitos falam. Mas não só por isso. Ele escolheu ficar porque, pasmem, ele gostava do [e de] Santos e do Brasil. Ele gostava de jogar no time dele, gostava de morar onde ele morava e viu possibilidades de explorar esse ambiente de forma financeira, o que tornava o acordo europeu bastante desvantajoso, mesmo que muito lucrativo (e em euros).

Devo confessar, por uns meses, achei que a escolha dele fosse forçar uma melhora do futebol brasileiro como um todo. Achei, de maneira muito emotiva, que o fato dele ter batido o pé para continuar na Vila Belmiro fosse chamar atenção de outros jogadores, que deixariam de aceitar contratos insanos em times sem expressividade apenas pelo montante de dinheiro. Achei que estes garotos começariam a perceber que há, sim, caminhos dentro do futebol brasileiro, mesmo que não muito rentáveis, mas proveitosos de outra maneira. O fato do Neymar ter ficado no Santos mostraria para eles, sonhava eu, que ser venerado por uma torcida e ter uma boa união de equipe poderiam bastar.

Achei, também,que os cartolas também pensariam melhor na hora de colocar seus melhores jogadores no mercado, como produtos em uma vitrine de luxo. A utopia, como sabemos, não aconteceu. Nos anos seguintes à sua escolha, as vozes dos “entendidos” ecoavaM cada vez mais fortSe: Neymar precisa sair para ser o melhor do mundo. Precisa. Precisa. Precisa. E cada jogo pelo Santos, para esta galera, significava que ele estava mais longe do tão sonhado troféu da Fifa. Quem me dera fosse diferente, mas não foi.

Então o acordo foi fechado. E aquela utopia que eu sonhei, talvez, ainda possa acontecer. Afinal, até na sua saída o garoto ensinou alguma coisa para os seus parceiros: optou pelo time que paga menos, porém, o que ele sonha em jogar. Num momento em que o futebol vira este negócio com cifras enlouquecedoras, dignas de operações entre empresas, o menino da Vila optou pelo Camp Nou em detrimento ao Bernabeu.

O menino, minha gente, ama ser jogador de futebol. Ama mais jogar futebol do que ganhar dinheiro. Diferente de milhares que também amam, ele deu certo naquilo que ama. E é isso, no final de contas, que vai fazer falta. MUITA falta, para o meu time e, talvez, para os outros.

Image

Tchau, menino. Valeu pelo amor à camisa do time que eu – e mais outras milhares de pessoas – também amam