Top of the pops

O espírito de fim de ano baixou em mim. Apesar de ainda não ter entrado de férias, nem de recesso ainda, sinto que preciso começar a enterrar este 2010! Por isso, resolvi terminar o ano neste blog do jeito que comecei: com cinema. Na verdade, isso só surgiu agora, eu queria mesmo era falar dos filmes que vi no ano.

Depois de fazer uma lista e de pensar um tanto, resolvi que farei um Top 10 de 2010! E o mais incrível é que esta lista contará apenas com os filmes que vi no cinema! Em tempo, mais de metade dos filmes que costumo ver são anteriores a 2000 [1/3 deles são anteriores a 1970!], o que me deixa bastante confusa quanto aos filmes a que assisti no ano.

Antes de começar a fazer a lista em si, preciso dizer que fiquei bastante surpresa ao perceber o quanto eu não vi os “lançamentos do ano”. E não faço isso porque não gosto de filme hollywoodiano ou porque quero manter uma postura-de-pessoa-inteligente, eu apenas tenho preguiça de pegar fila grande no cinema [algo mais do que comum quando se trata de um grande lançamento nos cinemas paulistanos. são DUAS filas, btw, se você tiver sorte de passar pela fila da bilheteria, terá uma outra na porta do cinema, para as pessoas garantirem seus lugares. Paulistanos e filas, um caso de amor]. E outra:confesso que muita informação, propaganda e comentários antes de qualquer filme me deixam bodeada para assisti-lo. Essa é a razão primordial para que não tenha visto Tropa de Elite 2 até a presente data. Fico deixando para depois e eles saem do cinema. Thats life.

E agora, rufem os tambores, a lista está aqui:

1. Cópia Fiel (Certified Copy, 2010 – Abbas Kiarostami)

Elle (Juliette Binoche), James Miler (William Shimell) e uma cidadezinha da Itália: precisa de mais?

De todo este top 10, este é o único filme que está devidamente rankeado. Foi, de longe, o melhor filme a que assisti em 2010! Vi numa sessão sábado à tarde no Reserva Cultural como parte da Mostra. Esse filme trata as feridas e traumas que o amor causa de uma maneira simples e tem uma delicadeza nada comum no cinema do Kiarostami [um iraniano que resolveu fazer um filme com uma francesa e um ingles na Itália] . Elle [Juliette Binoche] parece não conhecer o escritor James Miler [William Shimell]e também aparenta ser bastante encantada por este inglês. Quando ele está fazendo uma palestra em Toscana, a francesa o convida para uma pequena viagem. A relação de ambos é estranha eles compartilham intimidades demais para serem meros desconhecidos, mas são distantes demais para serem íntimos. Eles andam por uma pequena vila da Toscana, lindíssima, conversam, trocam opiniões.E o que era para ser um filme de romance se transforma em drama com traços de comédia. Nas nuances de diálogo a relação dos dois se desvenda, o passado vem à tona e a pergunta que fica no ar é: o que é aparência? O que é a cópia e o que é o real? Se for falar mais do filme, não consigo terminar a lista. Só recomendo que se você não o viu , por favor, baixe agora ou espere ele estrear no primeiro trimestre de 2011. Vale a pena!

2. Minha Felicidade (Schastye Moe, 2009 – Sergei Loznitsa)

Georgy (Viktor Nemets) no frio doloroso do inverno russo e do mutismo traumático

Bem, esse filme foi tema do post anterior a este. Só preciso acrescentar que o teor político do filme pode assustar um pouco, mas é uma história que deve ser contada. Georgy [Viktor Nemets] é um caminhoneiro que se perde na estrada e acaba caindo numa emboscada de ladrões de carga. Os ladrões batem nele antes de ver o que carrega em seu caminhão (farinha: nada valioso). Nesse momento, o destino de todos muda violentamente. E Georgy, antes tranquilo e simpático como a primavera em que dirige, fica traumatizado, doente e mudo, como o inverno em que o filme termina.

3. Soul Kitchen (Idem, 2009 – Fatih Akin)

Ufa! Tava ficando muito séria a lista. Até parece que sou uma pessoa densa, cult e centrada. Vem para a lista uma comédia engraçadíssima do diretor turco-alemão Fatih Akin. Antes de falar da história preciso comentar a trilha sonora. Fatih Akin é DJ em Hamburgo nas horas vagas e conhece uma galerona de músicos. Não era de se estranhar que Soul Kitchen tivesse música até no nome! A trilha desse filme tá incrível! É uma mistura de funk dos anos 70 com música balcânica [destaque para Manolis, do Dj Shantel, que encerra o trailer acima]! A história é trági-cômica Zinos Kazantsakis [Adam Bousdoukos] é um ascendente de grego que tem um restaurante numa área pouco nobre de Hamburgo. A comida do local é tão ruim quanto o lugar em si, e ele decide mudar as coisas quando conhece um cozinheiro maluco [que ama tacar facas nas paredes] . Com um golpe de sorte, uma academia de dança abre ao lado do bar e o Soul Kitchen vira um sucesso [com ajuda dos pratos ‘chiques’ do chef Shayn] ! Nesse meio tempo, Zinos tem que cuidar de um irmão trambiqueiro, de uma namorada que foi para Xangai e de uma hérnia de disco. Tudo isso de maneira engraçadissima e ritmada!

4.Tudo pode dar certo (Whatever works, 2009 – Woody Allen)

É, se não tivesse um do Woody Allen a lista não estaria completa! Vi este filme sozinha no Belas Artes. Cheguei em casa, e corri para baixar Manhattan, também do Allen. É impressionante como o Woody Allen sabe filmar Manhattan, onde Tudo pode dar certo acontece! Não estou falando mal de ‘Vicky, Cristina, Barcelona’, longe de mim. Mas dá para perceber quando alguém volta para casa. Nova York propulsiona o encontro de Boris (Larry David, que faz um Woody Allen perfeito!) e Melody (Evan Rachel Wood). Um senhor, físico inteligentíssimo e uma menina do interior que quer ser atriz. As tiradas pessimistas de Boris nos tomam conta, logo no começo do filme ele fala : Se você quer um filme para se sentir bem, vai lá e pede uma massagem no pé. No fim, é um filme para se sentir bem, mesmo com o pessimismo. Os pais de Melody também aparecem em Nova York, também mudam por causa da cidade: é o poder devastador que a dúvida traz. Apenas as grandes cidades podem colocar certos tipos de questionamentos na cabeça das pessoas. E apenas certos personagens conseguem fazer com que tais questionamentos se transformem em ações.

5. A Origem (Inception, 2010 – Christopher Nolan)

Pronto, Hollywood apareceu! Com um filme de alta classe, se quer saber. Nolan, diretor de Batman – O Cavaleiro das Trevas, deu o tom do filme mais surreal que os de Buñuel. Lembro de ter lido uma crítica de “A Origem” escrita pelo Calligaris em que ele falava que este foi o primeiro filme que conseguiu captar o que é um sonho. As ações se interpõem, os efeitos são estonteantes e a turma de atores está em sintonia. Como explicar “A Origem”?  Cobb (Leo DiCaprio) junta uma turma para colocar a ideia na mente de alguém, no lugar de roubá-la como estava acostumado.Além disso, ele tem que lidar com seu próprio inconsciente assombrado pela figura de Mal (Marion Cotillard, DIVA!). Quando entram no mundo dos sonhos, os tempos se diferem, e o filme passa a ter duas, três, quatro realidades ao mesmo tempo. A história tem camadas, todas elas devidamente explicadas em palavras ou com efeitos especiais. Se é uma coisa que Nolan não tem esta é sutileza.  Mas o filme funciona muito bem assim!

6. Abutres (Carrancho, 2010 – Pablo Trapero)

Sosa (Ricardo Darín) e Luján (Martina Gusman) o social, o amoroso e o político. Go Argentina!

Sabe aqueles filmes que te deixam pregados na cadeira do cinema? Então, este é “Abutres”. Confesso que nunca tinha assistido nada do Trapero antes, mas fiquei curiosa. Este filme tem trama e tem crítica social. Sosa (Darín) trabalha como “carrancho”, ou seja, fica a espreita de acidentes de trânsito para falar com os acidentados e burlar as leis de indernização. Tudo poderia ser pintado de maneira muito política e violenta se não houvesse Luján (Martina Gusman), uma médica de pronto-socorro por quem Sosa se apaixona. As cenas não se fazem de rogadas, o sangue aparece mesmo, as mortes aparecem mesmo. Nisso, as personagens se escondem. A violência pode ser exposta,  mas as personagens não. Em “Abutres” se mostra exatamente como o cinema argentino consegue versar sobre temas políticos sem ser considerados militantes e conseguem falar sobre romance sem ser piegas.

7. Os Inquilinos (Idem, 2009 – Sérgio Bianchi)

Válter (Marat Descartes) como o trabalhador da classe D

A prova cabal de que o cinema brasileiro não precisa falar da favela como ambiente socio-economico e sim como local psicológico. O medo está presente em todo esse filme do Bianchi, é algo paralizante. Válter (Marat Descartes) mora na periferia de São Paulo em uma casa com sua mulher e os dois filhos, eles moram . Tudo muda na vida deles e da vizinhança quando uma turma meio estranha passa a se alojar na casa ao lado: não se sabe se são traficantes, ladrões ou estupradores. Só se sabe que eles são malvados. A figura dos vizinhos é a personificação do diabo interno que cada um tem em si. Válter teme pela segurança de sua família e, mais do que tudo, teme pela sua impotência perante os estranhos. Falando em temer e medo, uma voz conhecidinha da gente aparece no filme: Datena! Sim, a família de Válter assiste ao programa do Datena que, inflamado, faz com que o terror paire pela aura das personagens.

8. À Prova de Morte (Death Proof, 2007  – Quentin Tarantino)

Não, não fiquei maluca, o filme é mesmo de 2007. Tarantino fez esse filme para ser a primeira parte de “Grind House”, junto com “Planeta Terror” de seu amigo Robert Rodrigues. Como se pode observar, a distribuição no Brasil foi #epicfail: Planeta Terror já estava em DVD para alugar quando A Prova de Morte chegou aos cinemas. Mesmo assim, o filme não perde a sua força. Ele é curto, violento, sádico e engraçado: uma boa síntese do cinema de Tarantino.  A história é maluca – como sempre – envolve um personagem meio estranho quase-sem nome [O Dublê Mike, vivido por um Kurt Russel bem badass] que tenta matar mulheres com o seu carro “a prova de morte”. Mas as mulheres de Tarantino não são nada ingênuas e pacíficas, por isso o Dublê Mike toma o revés da sua vida. As falas afiadas e a trilha sonora brega/hype também aparecem em “A Prova de Morte” [ Hold Tight e Chick Habbit são músicas presentes em minhas playlists até agora]. É, portanto, um filme de puro entretenimento a la Tarantino.

9. Guerra ao Terror (The Hurt Locker, 2009 – Kathryn Bigelow)

 

Sargento William James (Jeremy Renner) numa guerra interna com certas explosões externas

Entre as curvas esburacadas da estrada de BH a Tiradentes, alguns críticos de cinema comentavam sobre “Guerra ao Terror”, mais precisamente sobre Kathryn Bigelow. “Ela dirige feito macho”, brincou um. Ri e não comentei porque não conhecia nem a diretora, nem o filme. Não tardou para assisti-lo e concordar: ela dirige mesmo feito homem. Guerra ao Terror é desprovido de sentimentalismos, mensagens pacifistas e nojinhos femininos [sou mulher, acho que posso falar da minha ‘classe’]. Mesmo assim, o filme é político, sentimental e pacifista! Nas entrelinhas da linguagem documental, a realidade aparece e o medo transborda. Os militares do filme não vivem uma guerra clássica de bem contra o mal ou de eixo contra aliados. Nem eles sabem como são seus inimigos. Uma das melhores cenas é quando eles estão no meio do deserto atirando a esmo e se escondendo de outros tiros vindos do nada. Como Abutres, Guerra ao Terror prende você na cadeira, você termina o filme mais tenso do que quando o começou a ver. Afinal, cinema bão é aquele que te derruba mais que a realidade.

10. A Rede Social (The Social Network, 2010 – David Fincher)

Tanto o filme acima quanto este tem uma coisa em comum: conseguem retratar uma geração de maneira quase documental. Enquanto o Guerra ao Terror tem um jeito quase todo documental, a película de Fincher é mais  sensível e puxada para ficção, o que não a torna menos real whatsoever. O ritmo da fala de Zuckerberg (Jesse Eisenberg), Saverin (Andrew Garfield) e Sean Parker (Justin Timberlake arrasando) reproduz a velocidade de um perfil no Facebook com muitos amigos: rápido, confuso e hiperlinkado.  Podia ficar falando do Fincher, mas prefiro apontar para a edição do filme que também faz juz ao Facebook. Consegui entender e me ver no filme. Cresci com a internet semi-consolidada, minha pré-adolescencia já foi na Web 2.0 . Tive blogs, orkut e agora twitter e facebook. Ou seja, sou mesmo geração y, sou mesmo uma parte do A Rede Social. Na minha humilde opinião, os críticos que falaram que as personagens do filme “retratam uma geração” são velhos e estão errados. É o ritmo, a edição, a trilha sonora e o background que retratam a Geração Y, não os dramas e falhas das personagens.

Menção Honrosa [ou a prova de que não sirvo para fazer listas]

1. As Melhores Coisas do Mundo (Idem, 2010 – Laís Bodanzky) – Tenho uma relação especial com esse filme. Acompanhei a sua filmagem e ele foi tema da minha primeira matéria na Revista de CINEMA no ano passado.  Não imaginava que o filme fosse ser tão bom! O que mais me chamou atenção nele é que As Melhores Coisas do Mundo é …real! Nada de adolescentes-que-tomam-suco da Malhação. É uma galera do mal, como bem lembro que foram no colegial, que fui no colegial. E tem Beatles. Não preciso dizer mais nada!

2. Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte I (Harry Potter and the Deathly Hallows Part I, 2010 – David Yates) – Este é o meu lado harrypottermaníaca falando. Este foi o primeiro filme que, de fato, fez juz ao livro. E isso é muito! Pela primeira vez , também, o Radcliffe convenceu como protagonista.

3. Beyond (Svinalängorna, 2010 – Pernilla August) – Filme bergmaniano feito por uma atriz que atuou num filme de Bergman! Ironias do destino à parte. O filme é um soco no estômago ao tratar do passado familiar de uma mãe de família aparentemente feliz.  Leena (Noomi Rapace) lembra de si mesma quando pequena (a íncrivel Tehila Blad) e de tudo que passou quando seu pai sucumbiu ao alcoolismo. Isso acontece porque ela descobre que sua mãe está no hospital. A relação das duas coloca em cheque tudo que Leena sente por ela mesma, por suas filhas e pelo seu passado.  Tem outra coisa retratada nesse filme: a relação Finlândia e Suécia.

4. Recife Frio (Idem, 2009 – Kléber Mendonça Filho) – O curta já foi tema de um post inteiro aqui neste blog. Por isso, seria muito injusto se eu não o citasse como um dos melhores e mais criativos filmes que vi em 2010.

A suprema profundidade

Semana retrasada aconteceu a formatura do namorado da minha prima. Colação de grau em medicina, muito, MUITO barulho, muitos, MUITOS formandos. Fiquei distraindo o filhinho dele, que é uma das minhas maiores paixões do mundo. Ele se chama Yuri, tem 1 ano e uns 8 meses, ama música e é fofissimo. Pois bem, no meio daquele barulho, muitas pessoas sendo chamadas para pegar o diploma, o Yuri queria correr por todos os cantos. Fiquei com medo dele sair correndo, estava de salto e não conseguiria nunca ir atrás. Por isso, resolvi sentar com ele no chão e peguei uns papéizinhos laminados que estavam ali. Eram daqueles tipos de papéis picados que as máquinas jogam para o ar, e fazem uma chuva de prata [‘que cai sem parar’ #videokefeelings]. Jogava o papel pra cima e esperava cair. E esse ato serviu para entreter o Yuri.

Era como se eu tivesse passando o desenho predileto dele em cada papel que caía, tão grande a atenção que ele dava aos papeis. Quando o papelzinho caía em cima dele, então… esperava chegar perto da perna , ria e batia palmas. No meio daquela balbúrdia, era naquilo, e apenas naquilo que ele olhava. Os papéis eram o mundo dele. Quanta simplicidade! Quanta profundidade!

Muda a cena, o assunto nem tanto. Assisti ao filme “Minha Felicidade” (Schastye Moye), filme russo de diretor ucrâniano – Sergei Loznitsa – na Mostra. Aliás, assisti numa das últimas sessões da repescagem da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Era um filme que queria ver desde que li o quanto Luis Carlos Merten falou dele em Cannes, no começo do ano. A sessão aconteceu na Cinemateca, numa sala gelada. O frio da sala era intensificado pelas cenas de neve – que começam a surgir da metade para o final do filme – e pelo fato de eu estar com uma roupa “de verão”. Mas não me incomodava em nada, tinha entrado no filme.

Estava ali, dentro dele, até quando escutava o barulho incômodo das personagens andando na neve. Quase senti meus pés molhados. Quando o filme terminou, as luzes foram ligadas, saí da sala, embasbacada com a fodice do que tinha acabado de assistir, nem percebi as outras pessoas da sala. Parecia o baby Yuri, com toda a sua atenção voltada para o papelzinho laminado. No caso, eu tinha voltado todas as minhas atenções para as cenas, história e língua do filme [sim, gosto de escutar russo #prontofalei].

O filme é profundo, com elementos simples, quase tão translúcido quanto o papelzinho laminado. Ele mostra uma imagem cruelmente verdadeira de como a violência e a burocracia operam na Rússia pós-socialismo. O filme não só mostra, mas também mexe em algumas feridas meio podres do país, como a violência internalizada nas pessoas. A miséria de espírito e a perda de moral que ocorre apenas quando as pessoas ficam desesperadas. O tom da história é de desespero contido. Sabe quando você está com raiva, mas ninguém pode saber que está? Sabe quando você faz aquela besteira, mas ninguém pode saber que você fez?

A polidez da personagem principal é logo quebrada pela jovem [quase criança, pra falar a verdade] prostituta. E é massacrada pelos ladrões de estrada. O que acontece é que esta personagem principal, Georgy, é um caminhoneiro que percorre o interior da Rússia para levar sua carga de farinha. Parte do começo do filme é uma câmera na boleia, bem pra você vê a precariedade das estradas cosacas. Quando se vê em um engarrafamento, Georgy conhece uma jovem prostituta e decide  levá-la para sua cidade natal. Como cavalheiro, ele dá o dinheiro para a adolescente comprar comida e ir para casa. Ela, irada, briga com ele na cena que acho mais crucial do filme. Um diálogo que amaldiçoa Georgy: “não preciso do seu dinheiro, nem da sua compaixão”, ela fala. “Você não voltará amanhã para me dar mais. Posso ganhar dinheiro com o que tenho, com isso [bate nas suas…partes íntimas]” e joga o dinheiro em cima dele.

Sem entender, ele vai embora, mas se perde e para em uma estrada de terra no meio do bosque. É aí que tudo se perde, mesmo. Georgy confia em um ladrão de estrada e tudo se torna um devaneio. Um devaneio sobre a violência. Uma violência desnecessária, suja. Porque você sabe que ela vem para que algumas pessoas se deem bem. Pessoas que poderiam ter uma profissão, mas preferiram roubar. Dentro disso, ainda entram pequenas histórias, facetas da Rússia. Um menino se torna mudo depois de ver seu pai, um professor pacifista, ser morto por soldados cosacos. Georgy emudece e se transforma. É uma porrada, direto no estômago. Como eles podem viver assim? Por que isso está acontecendo? É o frio? Que realidade é essa?

Nem tudo é falado. Mas quase tudo é mostrado. Uma explicação pode residir no fato de que Loznitsa é documentarista, sabe captar a realidade em cenas. Mesmo na ficção mais maluca existe um tipo de realidade da qual não se consegue fugir. O que mais choca nesse filme é seu senso racional e objetivo. Nem Loznitsa, nem Georgy querem mudar o mundo; nem apenas retratá-lo. É um belíssimo gancho de direita, se querem saber. Se prestar mesmo atenção no filme, não conseguirá ficar incólume a ele. E talvez seja essa a ideia: passar a ação para nós, espectadores.

Não sei de vocês, mas eu não gosto de ter a minha inteligência menosprezada, nem hipervalorizada, por pessoas. Minha relação com o cinema, dessa forma, reflete isso. Não vou ser uma espectadora passiva que aceita e se ajoelha para qualquer coisa que me é contada. Quero poder entender um pouco mais. Cinema é apenas uma invenção. Arte é apenas uma invenção. Por que eu não posso inventar também? Por que o diretor ou o pintor pode isso? Onde está escrito? Qual é a lei que diz isso? Em que cânone está escrito que as personagens só podem falar e pensar daquele jeito que nos mostram? Por que devo acreditar que o the end é mesmo o final? Por que não posso descobrir as intenções por mim mesma?

São questões demolidoras de bases que me faço. E amaria que as pessoas se fizessem. Porque duvido que as pessoas escolham se acomodar por vontade própria. Duvido que simplicidade seja a mesma coisa que banalidade. O Yuri viu muito mais naquele papelzinho caindo que muitas pessoas assistem em cinemas; ele viu razão, sentido e comicidade naquilo. E isso é de uma profundidade matadora, assustadora. Mas não assustadora o bastante para espantar um bebê com menos de 2 anos de idade. Nem para me assustar. O universo está na frente dos nossos olhos, mas isso não significa que a gente olhe de verdade para ele. É tudo uma questão de treino e de demolição de certezas.

Entre a conformidade e a profundidade, sem dúvidas, escolho a segunda.

0,5

Meio ponto, quando falamos de matemática, é meio ponto que separa 8,5 de 9. Lógico que não quero pensar nos 1344 milésimos de décimos que tem entre estes números. Mas, é muito mais do que mero meio ponto que separa 8 e 1/2 , de Federido Fellini [meu FeFe], de Nine, de Rob Marshall.

É complicado, para não dizer desleal, comparar qualquer filme com 8 e 1/2, mesmo que o filme em questão tenha, de fato, se amparado na obra prima de FeFe para ser feito. O que temos em Nine é um pouco mais que a transposição linear do roteiro básico de 8 e 1/2, temos a transposição da aura ‘felliniana’ em pequenos – e ás vezes não tão sutis assim [como na cena em que Guido fala com Claudia, é puro La Dolce Vita] – detalhes audiovisuais. Muitos reclamaram, falaram que Nine não estava a altura do filme que tentou retratar, e, para falar a verdade, não está. Isso porque, na minha opinião, nenhum filme está a altura deste de FeFe. No entanto, é um grande preconceito dizer que o musical de Rob Marshall é um filme tão abaixo assim como vem dizendo os críticos.

Difícil viver a sombra de Fellini....

Olha,  antes de fazer qualquer tipo de análise – e aviso desde já que a farei, se não quiser ler algo longo, pare de ler agora, ou cale-se para sempre – preciso fazer um testemunho doloroso: eu odeio versões. Sim, as odeio mais do que gostaria. Como uma pessoa que se acha liberal, e acredita ser tão cabeça aberta, dói-me ter que admitir essa minha falha com relação a versões! Tremo na base toda vez que algum amigo chega para mim e diz ‘Escuta só a versão que  [INSIRA O NOME DA BANDA AQUI] fez da [INSIRA O NOME DA MÚSICA AQUI] dos Beatles’. A minha vontade é gritar ‘Por que, raios, eles precisam fazer uma versão de Beatles? Os Beatles já tocaram a musica perfeitamente. Por que estragar a perfeição??’. Entendo que é interessante colocar um novo ar em algo antigo, fazer uma releitura daquilo que já se fez, só não entendo o porque de fazer isso em coisas que, sozinhas, conseguem se bastar. Se sou assim com música, imagina só com cinema.

Quando li a primeira vez sobre Nine, fiquei na dúvida se queria morrer porque alguém pensou em transformar 8 e 1/2 em musical da Broadway ou se queria matar o ser que quis transpor isso para filme. No final, tanto ódio no meu coração se transformou em uma grande, enorme, torturante curiosidade que me fez assistir ao filme – no cinema! – numa segunda à noite, com um amigo que sei que não morre de amores nem por musicais, nem pelo cinema de FeFe.

No final das contas, o filme quebrou as minhas pernas, venceu todas as minhas barreiras. E posso dizer precisamente em que parte: quando percebi que a coletiva de imprensa com Guido ‘Contini’ [interpretado por um Day-Lewis muito mais ousado e irônico que Mastroianni, prontofalei] remontava a coletiva de imprensa de A Doce Vida, caiu a ficha que o filme era uma ode ao ‘cinema italiano’ [nome, inclusive, da música cantada pela jornalista-da-Vogue-americana AKA Kate Hudson ], uma ode ao cinema italiano de Federico Fellini. Foi quando percebi que Nine não é só uma versão, é um tributo.

FeFe atrás das câmeras, devaneios na frente dela.

A Itália pintada tão doce e surrealmente por FeFe está presente em cada cena de Nine. Do carro de Continni até o pandeirinho estilizado de Saraghina [Fergie!!!], está tudo lá escrito por linhas tortas de um Maestro que não dirigiu o filme. Não é a toa que o filme que Continni faria se chama Italia, não mesmo. FeFe tinha um estilo marcado, em quase todos os seus filmes a Itália aparece como coadjuvante – é o navio de E La Nave Va; a promiscuidade de La Dolce Vita; as brumas de Amancord; o otimismo de Noite de Carbiria;  a explosão de Ensaio de Orquestra – alguns ela é até personagem principal, como em Roma. Isso porque ele se colocava demais em seus filmes, cada um era mostra e recorte de um olhar criativo sobre o lugar em que vivia. Como ele tinha medo de avião [pouco viajou em sua vida], era natural que falasse tanto da Itália!

Continni queria era fazer em Italia o que FeFe fez em todos os seus filmes, por isso fracassou miseravelmente. Nesse ponto, em especial, ele se difere de Anselmi – o ‘verdadeiro’ Guido – que tinha a ânsia de mostrar qualquer coisa nas telas do seu possível filme. Anselmi, como bem apontou o crítico no final de 8 e 1/2, tinha medo da folha em branco, queria preenche-la com qualquer coisa que evitasse o branco, evitasse o vácuo em que vivia. O Guido de 8 e 1/2 tinha medo de perceber o quanto ele se colocava no vazio, mesmo sempre cheio de ideias, ideais e sentimentos. Já o Guido de Nine tinha medo de perceber o quanto era cheio disso tudo, o quanto estava vivo. Anselmi era menos vaidoso e muito mais melancólico que Continni. Por não saber se organizar, Alsemi se afundou na bagunça de seus pensamentos, na bagunça do tudo, no caos do nada. Enquanto Continni foi pra baixo quando organizou seu ‘tudo’. [Continni fez algo que Anselmi não conseguiria fazer: nomear o filme]

É interessante observar esta guinada que ambas personagens tomaram no filme. Embora, a meu ver, o desespero pela falta de ideias e pela pressão sentida pelos diretores ainda seja parecida, essa mudança mostra o quanto o tempo passou desde que o 8 e 1/2 se tornou 9. Uma fala foi suprimida, uma fala crucial para o auto-entendimento de Guido foi suprimida em Nine: Esta confusão sou eu. Eu, como sou, não como quer que eu seja. Continni foi mesmo mais corajoso, porém, foi Anselmi que chegou mais fundo.

É nesse ponto que temos aquilo que todos os críticos falaram tão mal: Nine é superficial. Sinceramente, não acho que seja. Nine é linear, e muitas explicações se perdem quando tentamos mostrar acontecimentos de forma linear. A vida não é linear. Muito menos   o ser humano. Somos tão complexos, que ás vezes somos tudo ao mesmo tempo, somos Anselmi, Continni, Cotillard e Aime. Como explicar alguém multifacetado de maneira linear? Exatamente, não se explica. O que se faz é escolher uma face, e se deter nela.

A face escolhida por Nine é a face profissional de Guido. Ele resolve sua crise existencial da maneira mais confiável e mártir: afasta-se do mundo para achar a sua inspiração em sua própria vida. No fundo, é algo que Anselmi também fez em 8 e 1/2, com o plus de que este Guido repensou seu olhar, assim como FeFe ao escolher filmar de forma tão escancarada a sua intimidade.

Por falar em intimidade, chego a um ponto muito delicado para mim, a personagem Luisa. O amor da vida de Guido, é também quem ele mais feriu com toda a sua crise, com toda a sua indecisão, com toda a sua….confusão. Em 8 e 1/2, a frase que citei uns parágrafos acima, é dita de Anselmi para Luisa.  Ele percebeu que a pessoa que ele era machucava profundamente a mulher que mais amava. Sei que em ambos filmes, Guido aparece na companhia de muitas mulheres, e que são elas que trazem toda a força que impulsiona o diretor [os diretores, para falar a verdade, os dois Guidos, FeFe e Rob Marshall], mas é Luisa quem ele ama. E é ela com quem ele não pode ficar.

9 é o número do filme, mas poderia MTO bem ser 7, as 7 poderosas !

A Luisa de 8 e 1/2 é mais altiva que a de Nine, mas ambas tem o mesmo sofrimento, e o mesmo tipo de beleza clássica. Anouk Aime tinha traços leves como os de Marion Cotillard [ duas atrizes francesas para interpretar o mesmo papel, olha só que estranha ‘coincidência’ ], embora a caracterização de Aime seja menos referente à Holly, de Audrey Hepburn, que a de Cotillard. A Luisa de Nine tem, porém, algo que a de 8 e 1/2 não aparentou ter : o sex appeal.

Entre todas as mulheres que ficam em volta de Guido Anselmi, Luisa é a menos sexy, a menos bonita, a mais sensata. Ela, claramente, é uma outsider no mundo do marido. E ele gosta que ela seja assim. Ele não consegue juntar aquilo que é para o cinema com aquilo que é para ela na sua cabeça, por isso a afasta. Dessa forma, Nine foi perfeito em colocar a música ‘Meu marido faz filmes’ na boca de Luisa. Apesar de ela ser atriz, ela se vê afastada do mundo das artes, ela não pode ficar do lado do marido.

Não consigo exprimir em palavras o quanto me identifico com Luisa. O sofrimento que ela passa, calada, por se sentir rejeitada em vários níveis pelo marido: profissional, pessoal e sexual, é absurdamente tocante, cruel e real. Luisa sabe que o marido a trai, conhece a amante dele e não pode fazer nada a respeito, a não ser brigar com ele, a não ser cortar ainda mais os vínculos que tem com ele. Acho que Nine foi muito mais legal com Luisa que 8 e 1/2, achei muito justo terem colocado ela para fazer a outra canção, aquela em que fala que ele tirou tudo dela.

FeFe não sentia a necessidade de ser explícito, por isso colocou em olhares e cenas aquilo que a Luisa de Nine falou em música e dança.  A Luisa de Nine fez com que Guido se sentisse realmente mal, conseguiu faze-lo perceber que ele estava mesmo no fundo do póço. Algo que, em 8 e 1/2, ficou no papel do crítico. Com essa mudança de eixo, Nine deu mais poder ainda para as mulheres.

a amante e a esposa

Uma das imagens mais conhecidas de 8 e 1/2 é uma em que Guido, de costas, com seu chapéu e de toalha, levanta um chicote contra uma mulher a sua frente. Trata-se da cena do devaneio central de Anselmi, quando ele se vê no meio de uma casa com todas as mulheres de sua vida. Desde sua mãe até uma garçonete bonita que o serviu. Nine remonta isso nas cenas inicial e final, quando as mulheres aparecem, todas, com roupas provocantes, no cenário em que as cenas musicais acontecem.

Be Italian, Fergie na pele da prostituta Saraghina cantou em sua cena musical apoteótica, vermelha e intensa. Be Italian, foi o que os filmes de FeFe gritaram à sociedade europeia em seus devaneios lúcidos sobre o amor, a religião e o ser humano. Acho mesmo que Nine remontou a aura do cinema Felliniano, ou remontou tão bem quanto um musical da Broadway pode remontar, faço coro com o Merten ao achar que FeFe gostaria muito desse filme.

Não sei se gostaria tanto quanto eu gosto dos dele, mas isso é uma outra história….

Diário de uma Mostra – Parte VII – A Praça

Qualquer pessoa de uma cidade pequena e não-litorânea sabe da importância social de uma praça. É o lugar em que todos se encontram,  quase uma balada a céu aberto. Como já disse nos posts anteriores, na Mostra de Tiradentes uma parte da programação é exibida no meio da praça principal da cidade.

A pousada em que eu estou, por coincidência do destino (ou não), fica na lateral desta praça, ou seja, todo o burburinho não passa incólume por mim. De qualquer forma, preciso comentar por aqui que a exibição do filme na praça dobra a sua força. O som a céu aberto, misturado com as pessoas que passam na rua e o burburinho dos bares ao lado faz com que os filmes tenham que se sobressaltar para não serem engolidos.

se a praça é do povo, o cinema nacional então...

Castro Alves bradou: “A praça é do povo”. Essa praça de Tiradentes comprova aquilo que muitos desacreditam: o filme nacional faz sim sucesso. Sempre se falou isso, principalmente na época do Cinema Novo, que o povo brasileiro não gosta do cinema nacional. Os filmes tão famosos por estudantes de cinema e por cineastas não eram tão solúveis para os olhos não treinados. Bem, passou-se o tempo, e veio a ecatombe Collor, ou a ecatombe-Embrafilme, passamos muito tempo com uma produção incipiente, e isso fez com que esse argumento se fortalecesse.

Não vou ficar aqui falando de tudo que mudou com relação as políticas públicas para cinema no país, é fato consumado que se tem mais dinheiro voltado para cineastas. O que quero dizer é que a emoção fala com o público, e quando ela consegue fazer isso direito, simplesmente, não importa em que língua ela venha, ou se foi feita com baixo ou altissimo orçamento. Esta praça pertence ao cinema, assim como o cinema pertence a ela.

Escutar a reação do publico, ver que pessoas ficam no fundo, em pé, assistindo aos filmes mostra que o interesse não vem por causa da gratuidade dos filmes. As pessoas riem, choram e falam com os filmes exibidos. Mesmo. Hoje a noite tive a oportunidade de ver três velhinhas que estavam sentadas no banco da praça se calarem, absortas, no Hebert de Perto, documentário desta noite designado para passar no local.

Cinema é emoção, é sentimento,é vida pulsante e tem que ser acessível! A praça ecoa a vontade do público. Poderia ecoar a vontade pública…

Diário de uma Mostra – Parte VI – Os Filmes

Sim, tinha que falar de filmes alguma vez na vida durante a minha estadia por aqui. E, sim, vou fazer um dia depois de ter visto o melhor filme do festival, aliás, os três melhores filmes do festival. Três curtas que passaram seguidos na sessão da praça. Comecemos com o fato dos curtas terem passado na tela instalada no meio da praça principal. Depois de quase uma semana, não choveu ontem, o céu estava límpissimo com direito a lua cheia e estrelas [sim, consigo ver muitas estrelas no céu de Tiradentes].

Tinha acabado de sair de outro filme muito gostoso, Um Lugar ao Sol, do pernambucano Gabriel Mascaro. Todos riram com as declarações tão reais que beiravam o absurdo.  Só uma parada para explicar sobre este documentário, que falou sobre os moradores de coberturas. Ou seja, uma pequena mostra do que a classe rica brasileira pode nos falar, tiveram momentos memoráveis nesse doc. como quando uma mulher falou de como via os tiroteios do morro do lado de sua cobertura como ‘fogos de artifício’.

Pois bem, não foi este o melhor filme. O melhor veio depois de dois curtas ótimos. O primeiro falava sobre o movimento gay do Brasil; o segundo sobre o movimento da música brega de Recife (uma câmera absurdamente sem julgamentos, muito respeitosa). Isso tudo preparou o terreno para Recife Frio, de Kléber Mendonça Filho.

E se o Recife ficasse gelado?

O filme parte de uma premissa interessante, simples e, ao mesmo tempo, complexa: e se o Recife ficasse frio? Montado como se fosse uma reportagem de tv argentina – como um globo reporter – o filme conta com cenas verdadeiras do Recife,  e com alguns depoimentos ficticios de ‘personagens’ da cidade. Segundo o produtor Juliano Dormelles, o filme demorou 3 anos para ser feito. Kléber passou todo esse tempo filmando Recife quando chovia e algumas outras cidades.

As ironias presentes no filme são incriveis. Mesmo a situação sendo apresentada como irreal, a crítica do filme é bem atual, e bastante ligada à realidade.  A rua vazia gravada por Kléber era a do Recife ‘quente’; a praia vazia era do mesmo Recife turístico. Mas, a melhor sacada do filme, é mostrar que a sociedade se adaptaria a uma inversão de certezas, mas continuaria tão hipócrita tanto. Nem preciso falar da parte técnica do filme, que é primorosa, essa brincadeira entre a ficção e o real é acentuada pelo absurdo.

Esse curta foi ovacionado três vezes depois dos créditos. Todos ficaram em choque. Eu fiquei mais do que isso. Fiquei atonita, o filme mexeu comigo. Não ele sozinho, mas a conjunção de fatores elevou a experiencia de te-lo assistido à enésima potência.

Diário de uma Mostra – Parte V – A(s) Língua(s)

– Aqui, bom festival procê também.

Assim que  a atendente da lotérica, que fica aqui do lado do hotel,  se despediu de mim. Ela achou muito engraçado o fato de eu ter um livro na bolsa, achou isso um habito “de paulista”. Nem precisei falar da onde era para as pessoas da fila, quando o casal começou a falar comigo, a mulher logo falou com toda a sua lógica “vc é de são paulo, não?” num tipo de pergunta que mais tinha tom de constatação que outra coisa. Resignei-me ao fato de que meu sotaque me denuncia.

Nunca tinha pensado na maneira de falar paulista como algo tão marcado, mas, segundo outro mineiro com quem conversei (um diretor de curtas), paulista tem um ritmo meio cantado. Estranho, sempre achei isso dos mineiros. É, deve ser algo de meu ouvido! Ou não…

Aqui na Mostra o que é mais comum é se encontrar pessoas dos mais variados sotaques do país conversando juntas em alguma mesa dos restaurantezinhos. Na área de imprensa então, parece a torre de babel. Misturam-se cearenses, pernambucanos, bahianos, mineiros, paulistas, cariocas [e fluminenses], paranaenses, goianos e gaúchos. Além disso, temos ainda uns sotaques de franceses falando em ingles, ou em um francês tão rápido que, mesmo se soubesse a língua, não saberia decodificar. Um desses franceses me concedeu uma entrevista (Fabien Gaffez, faz parte de um dos olheiros da semana da crítica, do Festival de Cannes, a entrevista tá aqui), a chuva caía muito forte na parte de fora, foi um caos para entender o inglês dele com sotaque gravado no meu mp4.

Em uma das entrevistas coletivas, um desenhista de som – sim, existe essa profissão – foi para a frente falar sobre Terras, o documentário que tinha ajudado a produzir [junto de Maya Da Rin, outra pessoa com quem falei, veja aqui]. Ele começou a falar do universo sonoro do documentário, e de como tinha sido a pesquisa para tornar o filme o mais natural possível, e como ele mexeu com universos sonoros desconhecidos para desenhar os ritmos do filme. Pois bem, Tiradentes é assim para mim.

Podem falar como quiserem, e não entender algumas de minhas gírias. Eu mesma posso não entender muitas outras gírias, ou achar estranha a maneira como o ritmo mineiro desenha ondulações no ar. Mas, aqui,  por aqui, é como se todos falassem uma língua só, o cinema. E ela consegue conectar a todos.

Diário de uma Mostra – Parte IV – O Tempo

Fato consumado : qualquer paulistano que saia minimamente de São Paulo por mais de dois dias sente uma total diferença no relógio biológico. É como se o corpo estivesse tão acostumado com o ritmo insano da lista de tarefas, que quando não tem um tic tac controlando, começa a doer. Bem, não posso dizer que não tenho coisas para fazer durante a Mostra de Tiradentes, já fiz algumas entrevistas, pretendo fazer outras por esses dias, e escrevi uma boa quantidade de textos para o site da revista.Mas, acima de qualquer coisa, posso afirmar que o ritmo da cidade é completamente….destoante.

Nos restaurantes, espera-se muito mais para receber a comida, por exemplo. É como se eles quisessem que o almoço fosse uma refeição completa, não só com direito a comida, mas também, com um espaço para que as pessoas conversem à mesa. É estranho ver o quanto esse hábito tem sido esquecido por mim mesma, é como se a mesa só servisse para apoiar a minha bolsa, ou para apoiar meu prato enquanto como de maneira rápida e objetiva.

O que é ridículo, visto que o corpo não consegue se acostumar a esse ritmo insano. Até consegue, para falar a verdade, mas perde uma boa parte de sua sensibilidade. Aqui consigo sentir o gosto de cada coisa que como. Se a vagareza me irrita? Sim, bastante. Principalmente quando se tem uma boa quantidade de filmes para se ver, como é o caso de Tiradentes. Só que não há como lutar contra ela, sabe? Então, tento desfrutá-la.

É muito estranho que o ritmo da Mostra não consiga casar com o ritmo da cidade. Dá para perceber pelo jeito da cidade, que a quantidade de horários e eventos dessa mostra destoam do cotidiano das pessoas. Estamos falando de uma cidade em que o principal restaurante [Atrás da Matriz] não funciona no almoço durante a semana, poxa vida!

A quantidade de cineastas que andam por essas ruas é quase tão grande quanto a quantidade de cinéfilos presentes na cidade apenas para o evento. E isso muda o tempo, muda o ritmo e o padrão. O cinema é muito mais do que imagens em movimento, são pessoas em movimento!

PS: Lembrei da música homônima dos Móveis Coloniais de Acaju…