Vasos, cicatrizes e ouro

Nas últimas semanas li, emocionada, uma série de relatos de amigas, colegas e mulheres desconhecidas pela internet. A razão, caso não estejam muito acompanhando o que vem ocorrendo pela web, foram duas campanhas em forma de hashtag: #primeiroassédio e #meuamigosecreto.

Ao usar essas hashtags, muitas mulheres acabaram por escrever sobre situações complexas e, por que não dizer, traumatizante pelo qual passaram: desde o primeiro assédio a relacionamentos abusivos. Fiquei, como todos, bastante tocada e emocionada ao ler a história de garotas em volta de mim, histórias de mulheres que admiro. Uma sensação que, infelizmente, não é nova para mim, cuja família é marcada por mulheres fortes com suas histórias revoltantes e tristes.

Isso tudo me fez lembrar de algo que li há um tempo, sobre vasos japoneses. Sim, vasos japoneses.

kintsugi

Existe uma técnica japonesa super antiga de recuperar vasos (e utensílios em geral, tipo pratos) chamada “Kintsugi” (ou “Kintsukuroi“). Essas palavras significam, mais ou menos, “marcenaria de ouro” ou “recuperar com ouro“.

Se um vaso quebra ou tem algum tipo de dano, na hora de restaurá-los, eles colocam uma liga de ouro, prata ou cobre para colar os pedaços de volta. O resultado fica parecido com essa foto aí de cima: os rasgos, as cicatrizes do vaso ficam a mostra.

No lugar de recuperá-los do jeito que eles eram antes da queda, antes de serem lascados, os japoneses preferem mostrar que a queda existiu. E o mais interessante disso tudo: o objeto fica mais forte. A porcelana, frágil, ganha força com os veios de ouro.

coffret_kintsugi_sarkis_hd

Essa técnica de restauração faz parte de uma filosofia secular japonesa chamada “wabi-sabi”. Para a arte, o “wabi-sabi” é uma veia estética que valoriza as falhas. Significa “beleza com falhas”. Como filosofia, é uma ideia que aceita a transitoriedade e a imperfeição da vida.

É dolorido ter um passado ruim. É dolorido ter vivenciado histórias tristes, histórias de abuso, de violência, de relacionamentos abusivos, de pessoas horrorosas, de fraquezas, de rejeição e de humilhação (essas duas últimas sei na minha pele, galera). A primeira sensação que temos é que o vaso quebrou e que nunca mais vai ser o mesmo. Que a gente quebrou e nunca mais vai ser o mesmo.

É assustador, lógico, porque ninguém sonha em ser quebrado. Ninguém sonha em ter rachaduras. Ninguém acorda e pensa: “puxa, que belo dia para se quebrar todinho”. Mas elas acontecem, é da vida elas acontecerem, e acontecem nos momentos que menos esperamos.

Usar o ouro é aceitar que, sim, essas situações horríveis aconteceram, que elas te marcaram como cicatrizes e que nunca será o mesmo depois disso. Você será uma pessoa melhor. Mais forte, mais bonita, mais brilhante e mais resistente.

E acho que todas essas hashtags, toda vez que alguém compartilha uma dor, é uma liga de ouro que ela acrescenta ao seu corpo. É uma linha dourada a mais nas lacunas que a vida, sem explicação alguma, deixou na gente.

20130429_78606

Anúncios

Armários

Um candidato à presidência associa a homossexualidade à pedofilia, diz que é preciso “enfrentar essa minoria” . Quando perguntam se ele é homofóbico, a resposta é “homofóbico, eu? Imagina, só coloquei a situação da maneira correta”.

Um pai de família faz piadas com gays, ri de travestis na rua e “não gostaria de ter um filho gay”. Quando perguntam se ele é homofóbico, a resposta é “homofóbico, eu? Imagina, eu nunca agredi nem nunca vou bater em um gay”.

Um ator famoso é conhecido por sair com homens e por gostar de outros homens. Quando perguntam se ele é gay, a resposta é “gay, eu? Imagina, com quem eu saio não tem nada a ver com vocês”.

Um jogador de futebol chama o namorado de primo na frente dos outros e pede para uma amiga dar um selinho para “ser flagrado com uma loira”. Quando perguntam se é gay, a resposta é “gay, eu? Imagina, gosto mesmo é de mulher”.

Uma garota chama um jogador de macaco no meio de um jogo de futebol, repetidas vezes. Quando perguntam se é racista, a resposta – em prantos – é “racista, eu? Imagina, não tive a intenção racista. Foi no calor do jogo”.

Um autor branco escreve uma série sobre garotas “da favela” com título controverso sobre mulheres negras. Quando perguntam se é racista, a resposta – furiosa – é  “racista, eu? Imagina. É uma obra de ficção, vocês que estão sendo preconceituosos”.

Um homem conta – e ri – de piadas de loira, chama a chefe/esposa de ‘mal comida’ e diz que mulher feia deve agradecer quando é estuprada. Quando perguntam se é machista, a resposta é “machista, eu? Imagina, era só uma brincadeira”.

Uma mulher julga outra pelo tamanho do corpo, quantidade de homens que transou; fala que não deve nada ao feminismo. Quando é perguntada se é machista, a resposta é: “machista, eu? Imagina, sou humanista”.

Uma mulher acredita na igualdade de oportunidades, quer que mulheres e homens tenham salários iguais, odeia ser cantada na rua. Quando perguntam se é feminista, a resposta é “feminista, eu? Imagina, sou feminina, não feminista”.

Um médico olha para a paciente, não a examina, não pergunta qual é o problema de saúde que ela tem e já lhe dá uma dieta como receita. Quando perguntam se é gordofóbico,  a resposta é “gordofóbico, eu? Imagina, estou falando apenas pela sua saúde”.

Um senhor votou no 45/13 nas últimas 3 eleições presidenciais e governamentais. Quando perguntam se é tucano/petista, a resposta – indignada – é “tucano/petista, eu? Imagina, sou apartidário“.

 

***

O Brasil é um país que precisa sair do armário. Urgentemente.

Não passarão!

Porque ninguém merece

Porque ninguém merece

Tenho uma teoria: o mundo virtual não se difere em nada do mundo real. Não somos usuários, somos habitantes da internet. O que significa que todas as nossas ações na rede de computadores são uma extensão do modo como agimos nas nossas casas, cidades e afins. Vejo, na verdade, a web como uma hiperrealidade, um ‘mundo real’ aumentado e muito, muuuito mais cruel.  Nessa sexta-feira, 28, (perdoem-me o tique de jornalista de colocar datas) pude perceber com clareza que essa minha ideia é mais do que correta.

Um grupo de mulheres, liderado por Nana Queiroz, resolveu reagir de maneira simbólica aos números revelados por uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgada no dia anterior, a ideia era mostrar um cartaz no lugar nos seios com as frases “Eu não mereço ser estuprada” ou “Ninguém merece”. Em tempo, a tal pesquisa do Ipea mostrou que 65% dos brasileiros concordam com a frase “Mulheres que usem roupas que mostrem o corpo merecem ser atacadas”. Além disso, também que 58,5% dos entrevistados concordaram com a frase “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”.

Os números são mesmo assombrosos, tão medonhos quanto o que ocorreu na web, durante o protesto simbólico. Na página do Facebook onde várias mulheres (e homens, para não ser injusta) colocaram as suas imagens de protesto, uma série de pessoas iniciou o ataque “anti-feminista”, ou melhor, apenas misógino mesmo. Chamo de pessoas porque, mesmo sendo perfis “falsos” ou “fake”, eles são controlados por alguém do outro lado da tela. E esse alguém tem uma opinião, no caso dos garotos, nojenta e completamente deturpada do que é feminismo. Protegidas pelo anonimato, algumas pessoas acham que podem fazer o que lhes der na telha, não muito diferente dos ladrões mascarados e assassinos disfarçados que, na calada da noite, atuam com a certeza de que não serão pegos. Daí porque disse no começo que o mundo virtual é mais cruel, o anonimato traz isso.

Os posts e comentários “ofensivos” – uns eram só idiotas mesmo, vindo de garotos muito jovens na sua maioria, continham os maiores absurdos que alguém pode ler. Alguns diziam que a mulher “precisa de rola”, ou “de um macho”; ou que todas as meninas que postaram fotos até ali mereciam ser estupradas. Começou, inclusive, uma campanha paralela, com fotos de homens seminus [como se isso fosse SUPER condenado na nossa sociedade, mas divago] usando cartazes de dizeres ‘eu mereço ser estuprado’.  Um garoto chamado ‘Filipe’, ou o seu heterônimo, risos, colocou um post indignado, em capslock perguntando, afinal, qual era a diferença entre estupro e sexo. A minha resposta, como algumas outras, foram didáticas. Sexo é feito com vontade mútua, estupro não. Mas ele continuou. Porque, amigos, é assim que os trolls se alimentam.

Em um momento, ele mandou uma risada para tod@s que estavam respondendo o post com a seriedade que merecia, falando que, puxa, as pessoas estavam levando aquilo “a sério demais”, e que ele e os amigos estavam na página “só para rir” e zoar as pessoas. Afinal, escreveu o garoto, “isso é só a internet”. Sim, é isso que eles pensam. É só a internet. Para mim, isso é só a realidade diária. Quando li isso, comecei a relevar os comentários idiotas e entrar na dança deles. Quem vai rir por último? No final, eu ri, e ri muito da cara deles, garotos que não sabem o que falam.

O medo, no entanto, ainda paira na minha cabeça.  Acho interessante – e um pouco patológico – a maneira que certos homens hipervalorizam a própria opinião, principalmente quando o assunto é o corpo da mulher e o corpo de mulheres desconhecidas. Como se aquelas garotas fossem ficar realmente ofendidas porque uma pessoa SEM ROSTO, afinal é fake, falou que ela não “merece nem ser estuprada porque é muito feia”. E quando a garota fala que não liga, o ódio dos comentários aumentam.  Confesso que já fui vítima de bulliyng com  meu corpo algumas vezes na vida – uma delas na faculdade, feito por pessoas do meu ano do jornalismo –  e não foi a coisa mais legal do planeta, na verdade foi bem o oposto. Com essa memória em mente e vendo os comentários da página, achei melhor não colocar a minha foto nela ontem, apesar de tê-la postado nas minhas redes.

Hoje eu resolvi postar. Porque se você precisa esconder o rosto para provar seu ponto, talvez a sua ideia não seja assim tão boa. E eu não preciso, nenhuma das mulheres que postou aqui precisa. E o meu recado para os machistas de plantão e para os escondidos em perfis falsos é o mesmo: não passarão!

 

NÃO PASSARÃO!

 

Cozinha, a última fronteira do feminismo. Ou seria a primeira?

Quando me mudei para São Paulo, morei em um tipo de “república feminina”.Éramos em cinco meninas. Ainda moro com uma dessas garotas até hoje, inclusive. Outras vieram, chegamos a morar em três, em seis. Sempre mulheres. Sempre mulheres que trabalham. Sempre mulheres que trabalham e estudam – seja na graduação, pós ou nos mais diversificados cursos (de produção até aulas sobre arte contemporânea). Com recém-completos 18 anos, era uma menina quando cheguei na cidade e saí da casa dos meus pais, local onde quase sempre a responsável pela organização, alimentação e limpeza era a minha mãe – apesar de ter anos em que ela trabalhava “fora de casa” entre 12 -13 horas por dia.

(Gostaria de fazer um adendo aqui sobre a minha mãe. Mulher fortíssima, ela trabalha desde não sei que idade e sempre fez questão de ter o próprio dinheiro. Até hoje, ela e meu pai não têm uma conta conjunta, eles dividem, na maneira do possível, as contas de casa.  Ela nunca gostou de ter que pedir dinheiro para ele, não para comprar as coisas que são dela. Considero ela um bom modelo feminino para mim, pelo menos nesse ponto, de mulher que conseguiu sair de uma condição adversa sem precisar de um homem. Mesmo assim, com toda essa postura de chefe da casa, ela ainda é a responsável pela limpeza, arrumação e culinária “do lar”. Meu pai ajuda, mas não divide as tarefas domésticas. Minha avó, cuja história já contei por aqui, também tinha uma personalidade forte, casou-se tarde para a época e quis trabalhar fora de casa. E, adivinhem só, cuidava dos afazeres da casa. Os tempos eram outros, não?!)

Voltemos à história, pois vim morar em São Paulo nova de tudo. Fazia pouca ideia do que tinha que ser feito dentro de uma cozinha, por exemplo. Não tinha ideia quais produtos misturar para limpar o chão direito, era água e detergente? Desinfetante e removedor? Lavar roupa estava naqueles mistérios bem misteriosos. Com o tempo, peguei o jeito. Em menos de um ano, já conseguia me aventurar na cozinha e lavar algumas peças de roupa. “É normal”, disseram-me. Imaginei que fosse, até perceber que muitos amigos meus não tiveram o mesmo tipo de aprendizado em suas repúblicas. Nem mesmo o meu pai, que morou durante anos em república, passou por essa mesma curva de aprendizagem nos afazeres domésticos.

Em repúblicas masculinas é “normal” ter uma diarista, empregada ou faxineira. Veja bem, faço a comparação a partir de colegas e amigos na mesma situação monetária que a minha. Pessoas que estagiavam, estudavam e tudo mais. Isso me deixou intrigada, de verdade. O que eu achava uma obrigação, para muitos garotos, era apenas uma simples tarefa mundana que poderia ser passado para uma mulher fazer. Nesse meio tempo, mais ou menos um ano e meio desde que me mudei, a minha “república” começou a se desfazer e se tornar muito mais um apartamento dividido entre amigas. Começamos a ficar realmente sem tempo e a perceber que nossos finais de semanas ficavam muito comprometidos com faxinas mil. Pensamos bem, pesamos na balança monetária e, bem, conseguimos contratar uma diarista para um final de semana por mês – ou algo assim, não me lembro se era uma frequencia de 2 ou 3 vezes, mas não eram todos os finais de semana, muito menos todos os dias.

A primeira coisa que escutei da minha família ao comentar que estávamos procurando uma diarista foi : “mas você mora com meninas, por que precisa de uma diarista? vocês não sabem limpar?”. A questão era seguida de uma risadinha ou de uma inconformidade mesmo. Como assim, quatro garotas (quanto éramos na época) precisam de uma empregada?! Como se eu e as minhas companheiras de apartamento fossemos menos mulheres porque “nos recusávamos” a fazer essa tarefa.

Nesse meio tempo, um primo meu passou em uma universidade federal e também foi morar numa república masculina. Ninguém questionou sobre o asseio do lugar e eu não me espantei quando descobri que existia, sim, uma diarista. Afinal, os homens não podem ficar perdendo tempo com essa coisa de limpar casa, né?!

Em tempo, algumas diaristas com quem converso se dizem espantadas quando chegam em casas limpas e arrumadas de homens, elogiam os garotos. E ficam igualmente espantadas quando encontram apartamentos bagunçados e sujos habitados por mulheres.

Já cansei de escutar brincadeiras, dentro e fora da minha família, sobre como certos homens merecem parabéns porque sabem lavar uma louça. (Puxa, parabéns, colega, você sabe passar sabão em um bando de pratos/copos e enxaguar. que dificil!) Ou porque sabem dobrar roupas (!). Ou, até mesmo, porque “gostam de cozinhar”.

Por que conto tudo isso para vocês? Bem, acabo de ler um estudo que imaginava ser de agora, mas é de alguns meses atrás. De acordo com o Data Popular, numa pesquisa feita para o site “Tempo de Mulher”, para 50% dos homens brasileiros, cuidar da casa é um papel da mulher. Numa outra pesquisa, feita pelo mesmo instituto para o mesmo site, 42% dos homens afirmaram que não respeitariam homens que escolhessem largar a carreira para cuidar da casa. Para 44% dos homens, tal escolha seria uma vergonha. No entanto, para 78% deles, se uma mulher fizer o mesmo, ela merece o respeito. Ou seja, o brasileiro até acredita que a mulher pode sair, ganhar o próprio dinheiro, pagar as próprias contas, ser a “chefe do lar” mas, no frigir dos ovos, ele crê que o lugar dela é mesmo na cozinha.

Não amigo, você não está agradando

Não, amigo, você não está agradando quando ‘faz carinho’ no cabelo de uma garota na balada.

Não, amigo, você não está agradando quando fala ‘linda’, ‘gostosa’, ‘maravilhosa’ ou qualquer outro “adjetivo” para uma desconhecida na rua. Independente do seu tom de voz.
Não, amigo, você não está agradando quando fala, aos risos, que sua colega, amiga ou companheira está irritada porque “está naqueles dias”.
Não, amigo, você não está agradando quando faz a piada do cadeado e da chave*.
Não, amigo, você não está agradando quando fala para um colega que descobriu que será pai de uma menina que ele terá “que comprar uma arma” ou que ele vai “deixar de ser consumidor para ser fornecedor”.
Não, amigo, você não está agradando quando duvida que uma mulher loira possa ser inteligente, inclusive mais inteligente que você. Ah, e nem quando faz piadas de loiras.
Não, amigo, você não está agradando quando pede, em forma de escárnio, “então me explica qual é a regra do impedimento” para uma garota que diz gostar de futebol.
Não, amigo, você não está agradando quando ri e aponta para mulheres gordas ou baixas ou mais velhas quando elas vestem roupas mais curtas ou mais ousadas.
Não, amigo, você não está agradando quando entra em matérias/galerias sobre musas do esporte, mensalão, julgamento e afins. Nem quando você faz ou pauta um tipo de matéria assim.
Não, amigo, você não está agradando quando você grita, na rua,  ‘gorda’ para uma mulher acima do peso.
Não, amigo, você não está agradando quando pergunta “de brincadeira” se uma menina conhece mesmo a banda estampada na camiseta dela. E agrada ainda menos se pedir que ela cite, pelo menos, um x número de álbuns dessa banda.
Não, amigo, você não está agradando quando chama ou se refere a uma mulher com um diminutivo num ambiente de trabalho e fora de qualquer tipo de contexto
Não, amigo, você não está agradando quando afirma que “atrás de um grande homem tem sempre uma grande mulher”.
Não, amigo, você não está agradando quando questiona a capacidade manual de uma mulher só porque ela é mulher.
Não, amigo, você não está agradando quando fala para uma lésbica que ela só gosta de mulher porque ela não encontrou um homem certo. Aliás, se você usa a expressão “homem certo”, você realmente não deve agradar muito.
Não, amigo, você não está agradando a sua amiga quando você fala para ela dar em cima do chefe para subir de cargo.
Não, amigo, você não está agradando quando “elogia” o decote de uma desconhecida na rua.
Não, amigo, você não está agradando quando diz que uma menina é pra namorar e a outra para pegar.
Não, amigo, você não está agradando quando coloca a mão na perna de uma mulher desconhecida no transporte público.
Não, amigo, você não está agradando quando fala para uma garota “feia” que ela deveria lhe agradecer por você ter beijado ela.
Não, amigo, você não está agradando quando você sabe que recebe mais que a sua colega de trabalho e diz “mas o ambiente está mudando, as mulheres já estão no poder”.
Não, amigo, você não está agradando quando fala “mulher gosta de dinheiro, quem gosta de homem é gay”.
Não, amigo, você não está agradando quando bate no peito de orgulho e diz que você “ajuda em casa” porque você “até sabe lavar a louça”.
Não, amigo, você não está agradando quando diz que a mulher tem que ser tratada como rainha.
Não, amigo, você não está agradando quando chama uma mulher que gosta de sexo de “vadia”, “puta” ou afins.
Não, amigo, você não está agradando quando é mais gentil com uma mulher só porque você está interessado nela.
Não, amigo, você não está agradando quando você justifica seu ciúme como “proteção”.
Você não está agradando. Não é engraçado, não é lisonjeiro, não é divertido, não é agradável. É só irritante, babaca e machista mesmo.
[* Aluna ao mestre: “Mestre, não entendo. Se um homem transa com várias mulheres, ele é visto como um garanhão. Se uma mulher transa com vários homens, ela é vista como uma vadia. Não é injusto?”
Resposta do sábio mestre: “Minha filha, pense nisto da seguinte forma. Se uma chave abre várias fechaduras, ela é uma chave mestra, uma coisa boa de se ter. Já uma fechadura que é aberta por várias chaves diferentes… bem, esta é uma péssima coisa para se ter”.]

Sobre Feliciano e a vinda do Papa

Estava com um texto quase completo na minha cabeça sobre a polêmica toda com relação ao Feliciano, a bancada evangélica e o projeto da ‘cura gay’. Então começaram a pipocar mil notícias sobre a vinda do Papa Francisco ao Brasil. Minha atenção se desviou por um tempo e, juro, tinha também quase um texto mental completo comentando a inusitada reportagem do escultor de areia de Copacabana que cobriu a bunda de uma de suas estátuas, uma mulher, por causa da vinda do papa.

Daí pensei bem e achei que faria muito melhor ao mundo – e aos ~meus~ leitores – se compartilhasse algo que mudasse a vida deles. Algo incrível que realmente, realmente, fizesse diferença para eles. E não para perpetuar preconceitos, mesmo que seja para refutá-los.

Por isso, resolvi colocar aqui a receita do bolo de iogurte [de liquidificador!] que a minha mãe faz. Acho que um bolo quente ( = amor) é mesmo a melhor resposta para o ódio, a ira e as hipocrisias que só fanáticos religiosos (e machistas de plantão) trazem. Segue:

[ATENÇÃO: Imagem meramente ilustrativa. o bolo da minha mãe fica mais bonito. só que nunca sobra para tirarem fotos dele!]

Ingredientes:
1 copo de iogurte natural
2 copos [do próprio iogurte] de farinha de trigo
2 copos [do próprio iogurte] de açúcar
4 ovos inteiros
1 colher (sopa) de fermento em pó
1/2 copo [do próprio iogurte] de óleo

Bata bem todos os ingredientes no liqüidificador, deixando o fermento por último. Despeje a massa em uma assadeira redonda, com furo no meio, untada com manteiga e polvilhada com farinha [ou só com manteiga, mesmo]. Leve ao forno pré-aquecido até assar. Tire o bolo da forma e polvilhe açúcar e canela a gosto como cobertura.

Ah, e não esqueçam de lavar a louça no final. Forma caráter.

Abercrombie & Fitch é aqui

Chupa A&F!

Tudo é escrito a tinta na internet. Fato. Nas últimas semanas, uma entrevista que Mike Jeffries, CEO da marca coxinha Abercrombie & Fitch, deu em 2006 voltou a ser comentada. Nela, Jeffries afirma com todas as letras que não quer pessoas “gordas” e “não-legais” usando a sua marca. Sete anos depois, a A&F deixou de vender os tamanhos XG e XXG e a polêmica se instaurou.

Não quero comentar o tamanho da babaquice que foi uma empresa negar um bom número de consumidores em potencial apenas em nome do “cool”. De qualquer forma, fiquei um pouco espantado quando vi uma galera aqui do Brasil alimentando essa polêmica. Isto porque, bem, grande parte das marcas (falaria 99%, mas me faltam dados empíricos) brasileiras fazem isso.

Qualquer pessoa, mulher principalmente, que use tamanhos acima de 46 sabe do que estou falando. Estou falando sobre aquela sensação ótima de vergonha que se tem ao entrar numa loja de roupas e já receber aquele olhar da vendedora, ou palavras mesmo (incontáveis vezes já escutei um sonoríssimo ‘para você, não tem roupa aqui’, seguido de um olhar de baixo a cima). Ou aquela sensação levemente desesperadora de entrar em quatro, cinco lojas seguidas e nenhuma delas ter algo perto do seu tamanho. Ou aquela frustração básica ao experimentar uma calça do seu tamanho, com uma modelagem menor. Ou, até mesmo, entrar em uma grande loja de departamento e ter que se contentar com a arara dos chamados, ahn, “tamanhos especiais” (acho uma gentileza quando chamam mais de 50% da população brasileira, que está acima do peso, de especiais, mas divago).

Essas sensações todas acontecem por um motivo que chega a ser óbvio: as marcas não produzem roupas de tamanhos maiores. Quando produzem, é em uma escala tão pequena, que acabam rápido. Ou então, quando produzem, não são do tamanho correto. E, antes que me falem que estou falando apenas a partir de um ponto pessoal, indico esta reportagem da Folha. Segundo um estudo do Senai Cetiqt, 64,4% das mulheres do Sudeste têm, em média, 97,1 cm de busto, 85,4 cm de cintura e 102,1 cm de quadril. Para elas, os tamanhos que usam estão, em média, 10 cm inadequados.  “As brasileiras são maiores do que as marcas ‘de ponta’ acreditam. A maioria delas é corpulenta e usa tamanhos entre 42 e 46″, afirmou o coordenador do estudo à Folha.

Amigos, o CEO da A&F só declarou aquilo que já passa pela cabeça das muitas outras grifes de moda, de Channel à C&A. Foi cruel? Pra caralho. (E nem um pouco real) Mas é assim que a ditadura da beleza, ou melhor dizer, o mercado da ‘beleza” age: estabelece uma padronização a partir de um modelo impossível e o consumidor que se vire para atingi-lo.

[quem ilustra este post é a foto da modelo Jes Baker, que fez uma carta aberta contra a A&F em seu blog. Achei LINDO]

PS: Entrei na tabela de tamanhos da Abercrombie & Fitch, só por curiosidade. Enquanto as roupas femininas tem o  ‘L’ (Large, ou G, no Brasil) como maior opção de tamanho; as roupas masculinas têm até o ‘XXL’ (XXG) e XL (XG), no caso das calças. Aparentemente, Jeffries só não quer mulheres gordas usando a sua marca.

PS2: Nunca achei a A&F aquela coca-cola toda. Na verdade, o Fitch escrito nas camisetas dessa grife sempre me remeteram à agência de classificação de riscos Fitch, e, na real, não acho nada cool andar com uma coisa dessas escrita em meu peito. Mas, enfim, sou eu, né?