Sheik, sheik, sheik ….

A realidade supera a ficção constantemente. Em qualidade, quantidade e, lógico, em tamanho do nonsense.

Nessa manhã, uns torcedores de um popular time de futebol paulista resolveram sair do conforto de seus lares, num dia frio e foram lá protestar na frente desse mesmo clube.  Alguns outros não foram tão pró-ativos, mas acordaram nesta segunda-feira sentindo um certo mal estar quando o assunto era o seu clube do coração. O time em questão acabou de encostar nos líderes do campeonato, está em quarto lugar, apenas quatro pontos abaixo da primeira posição. Se o campeonato brasileiro acabasse hoje, esse time recém-ganhador de uma Libertadores poderia disputá-la novamente. Caramba, então contra que os torcedores se revoltaram?

Resposta: Contra isso:

Foto retirada do perfil de @10emerson10 no Instagram

Foto retirada do perfil de @10emerson10 no Instagram

Publicada ontem no perfil do instagram de Émerson Sheik , o cara de toca aí na foto, que também é o número 11 do Corinthians, a imagem mostra o jogador dando um beijo de leve, um selinho, em um amigo. O texto que se segue a ela é o seguinte: “Tem que ser muito valente, para celebrar a amizade sem medo do que os preconceituosos vão dizer. Tem que ser muito livre para comemorar uma vitória assim, de cara limpa, com um amigo que te apóia sempre. Hoje é um dia especial. Vencemos, estamos mais perto dos líderes. É dia de comemorar no melhor restaurante de São Paulo, o @Paris_6 , com o melhor amigo do mundo, Izac. Ah, já ia me esquecer, para você que pensou em fazer piadinha boba com a foto, da uma pesquisada no meu Instagram todo antes, só para não ter dúvida”.

A reação que veio a partir dessa imagem tem sido de um nível absurdo de nonsense. Além das “piadinhas” oportunas, dizendo que os corinthianos “vão deixar de roubar carteiras para roubar os pinto” (sic), ou que os corinthianos “são os verdadeiros bambis”, o que também pode ser observado foi um grande movimento por parte da torcida. Uns torcedores resolveram sair em defesa do beijo, apontando outras “vergonhas” de jogadores de clubes rivais, do São Paulo, na sua maioria. Outros, como contei de maneira lúdica, foram para a frente do estádio com faixas (sim, faixas! ) e exigiram uma retratação oficial do Sheik. Nos cartazes, pode-se ler “Vai beijar a ‘P.Q.P’… Aqui é lugar de homem” e “Viado não”.

Há alguns anos, conheci um jogador de futebol gay (um tanto famoso), ele me apresentou o namorado (um garoto bem bonito, diga-se de passagem) e comentou comigo que sofria muito por causa da diretoria e da torcida do seu time. Perguntei para ele se os seus colegas de time achavam ruim, por causa do vestiário e tudo mais. Ele me respondeu de maneira sincera: “Um homem hétero trabalha no mesmo ambiente de uma mulher, certo? E ele não fica assediando ela o tempo inteiro. A mesma coisa sou eu num vestiário ou num jogo, é o meu trabalho. Não é só porque tem um bando de homem pelado que vou lá chupar o pau de todos”. Ser gay, falou ele, não muda a minha qualidade técnica em nenhum momento. O problema da torcida não é com o futebol. Essa conclusão eu cheguei “sozinha”.

As faixas dos torcedores corintianos podem não falar um a sobre futebol como esporte, mas são eloquentes no quesito “homofobia futebolística”. Mostram a face daqueles (muitos) que creem, fielmente, que um homem deixa de sê-lo quando gosta ou beija outros. E daqueles que acreditam que um homem não pode agir de maneira mais feminina, pois isso o faz “perder o respeito”. Ou, pior, daqueles que não se dizem homofóbicos, e acham que a orientação sexual de uma pessoa é significado de piadas.  Daqueles que “não são homofóbicos, mas não querem ver essas safadezas na frente de todo mundo, né?”.

E eu pergunto, que respeito é esse? Que ideal de homem é esse que essa torcida corinthiana pede? Qual é o “homem com h” para esses donos dos arautos da macheza nacional? Quem merece ser condecorado? Quem merece a estrelinha azul-dourada (porque apenas dourada “é coisa de viado”)? Porque posso dizem um sem-número de jogadores de futebol que, apesar de gostarem muito de mulheres, não são em nada heróis. Mesmo assim, não tivemos torcedores reclamando. Ninguém foi lá fazer faixas contra Ronaldo ao saber que ele maltratou três travestis. Muito menos fizeram faixas e protestos contra o Bruno, goleiro do Flamengo que foi acusado de matar a ex-namorada de maneira cruel. Não vi um santista na frente do CT Rei Pelé quando o Fábio Costa foi acusado e obrigado a pagar um valor alto para uma garota que trabalhava no Santos, que foi abusada por ele DENTRO das dependências do time. Ninguém achou que esses nomes iam manchar a honra do time.

Mas, ok, um cara beijando outro vai.

Se esses torcedores têm tantos problemas com “jogadores que não se dão a respeito”, por que vão protestar contra uma foto de um beijo no instagram? Na minha sincera opinião, esses “homens com h” que se valem para reclamar de um jogador gay, de um comportamento gay, de um beijo gay se importam mesmo é com o cu dos outros. Freud deve explicar.

Enquanto isso, vou aplaudir a atitude e a coragem do Sheik. De ir contra o que todos acham. E mostrar uma coisa que deveria ser normal, mas ainda não é: o amor entre as pessoas.

A atitude, amigos, fala mais (e mais alto) do que qualquer discurso.

Tchau, Neymar!

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Neymar chora no começo de sua última partida no Santos

(ATENÇÃO: A autora do post herdou de seu pai , de sua avó , de sua família- e de sua cidade – um amor incondicional pelo Santos Futebol Clube. Acho bom sempre avisar antes.)

Neymar chorou ao escutar o hino nacional no seu último jogo com a camisa do Santos. E eu chorei com ele. Então o menino se foi. Finalmente, alguns dizem. E deixa para trás uma tristeza para o Santos. E, porque não, para o futebol brasileiro.

Não vou falar de dribles, de jogadas, de golaços. Nem de títulos. Acho que os muitos jornais e comentaristas esportivos de futebol já colocaram isso tudo muito bem. Também não quero comentar sobre as inúmeras, e nem sempre acertivas, campanhas publicitárias estreladas por ele, o menino de ouro da Vila Belmiro.

O Santos perde, e muito, porque vê indo embora um garoto que jogava no time para qual torcia. Um detalhe que faz muita diferença nos momentos de hoje. Esse fator criava uma motivação fora de série, mesmo em jogos ruins, era difícil ver o Neymar sem vontade. E, cara, nada mais incrível do que ver um jogador do seu time jogando com muita vontade.

Colocado de lado por Luxemburgo, que em 2009 chamava o  garoto de “filé de borboleta”. o menino chamou atenção com o Santos de 2010 ao protagonizar partidas com placares inimagináveis. Talvez, pensei eu, ele seja mesmo um craque. Como santista, vê-lo em campo me dava mais confiança. Quando estava num dia inspirado então, sai de baixo que o Neymar é nosso. Todos o queriam fora do País em 2011, e ele, junto do Santos, escolheu ficar.

“Por dinheiro”, muitos falam. Mas não só por isso. Ele escolheu ficar porque, pasmem, ele gostava do [e de] Santos e do Brasil. Ele gostava de jogar no time dele, gostava de morar onde ele morava e viu possibilidades de explorar esse ambiente de forma financeira, o que tornava o acordo europeu bastante desvantajoso, mesmo que muito lucrativo (e em euros).

Devo confessar, por uns meses, achei que a escolha dele fosse forçar uma melhora do futebol brasileiro como um todo. Achei, de maneira muito emotiva, que o fato dele ter batido o pé para continuar na Vila Belmiro fosse chamar atenção de outros jogadores, que deixariam de aceitar contratos insanos em times sem expressividade apenas pelo montante de dinheiro. Achei que estes garotos começariam a perceber que há, sim, caminhos dentro do futebol brasileiro, mesmo que não muito rentáveis, mas proveitosos de outra maneira. O fato do Neymar ter ficado no Santos mostraria para eles, sonhava eu, que ser venerado por uma torcida e ter uma boa união de equipe poderiam bastar.

Achei, também,que os cartolas também pensariam melhor na hora de colocar seus melhores jogadores no mercado, como produtos em uma vitrine de luxo. A utopia, como sabemos, não aconteceu. Nos anos seguintes à sua escolha, as vozes dos “entendidos” ecoavaM cada vez mais fortSe: Neymar precisa sair para ser o melhor do mundo. Precisa. Precisa. Precisa. E cada jogo pelo Santos, para esta galera, significava que ele estava mais longe do tão sonhado troféu da Fifa. Quem me dera fosse diferente, mas não foi.

Então o acordo foi fechado. E aquela utopia que eu sonhei, talvez, ainda possa acontecer. Afinal, até na sua saída o garoto ensinou alguma coisa para os seus parceiros: optou pelo time que paga menos, porém, o que ele sonha em jogar. Num momento em que o futebol vira este negócio com cifras enlouquecedoras, dignas de operações entre empresas, o menino da Vila optou pelo Camp Nou em detrimento ao Bernabeu.

O menino, minha gente, ama ser jogador de futebol. Ama mais jogar futebol do que ganhar dinheiro. Diferente de milhares que também amam, ele deu certo naquilo que ama. E é isso, no final de contas, que vai fazer falta. MUITA falta, para o meu time e, talvez, para os outros.

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Tchau, menino. Valeu pelo amor à camisa do time que eu – e mais outras milhares de pessoas – também amam

Futebol e a cidade

Santos e Corinthians. Final do Paulistão 09. Fazia alguns anos desde que uma final do campeonato paulista não agariava dois grandes times. Corinthians ganhou, sorte da galera da fiel, e do Ronaldão (que pode ter dado baile, ter feito dois gols lindos no primeiro jogo, mas continua estando gordo, na minha opinião).

Mas, como assim, eu, falando de futebol? Eu a pessoa mais cultura-arte-cinema-para-o-mundo, falando de futebol, algo que só conheço de ver algumas vezes e de memórias ótimas da minha avó assistindo. Salvo as vezes que vejo com o meu pai e meus tios/primos, mas isso é mais pela companhia que pelo jogo em si.

Por isso, aqui, não quero falar do jogo. Milhares de sites, blogs e bla bla bla vão repercuritr o quase-incendio da comemoração. As jogadas certas e erradas. As táticas e jogadores. Não, o que quero falar aqui, é das cidades. Minhas duas queridas cidades: Santos e São Paulo!

Sempre gostei de Santos quando o Santos vai para a final dos campeonatos. A cidade fica mais alegre. Bandeiras surgem nas janelas. Uma vez, no final de 2002 (o históórico Brasileirão de 02!), lembro de ter visto uma toalha do Santos colocada na janela como bandeira. O morador , ou moradora, por falta de bandeira, encontrou na toalha mais ou menos velha, uma maneira de mostrar para quem passasse na frente de sua casa, que era santista mesmo, com orgulho e amor (ou seria paixão?!).

Na final do Paulista não era diferente. A cidade naquele clima de “Vamos, Santos, vamos ser campeões”. Em todos os canais, uns ambulantes vendendo bandeiras e camisetas. Na padaria “A Santista” [que será o tema do nosso próximo post em um futuro não tão distante], uns tocando pandeiro, muitos bebendo, e todos, sem exceção, com alguma coisa, camiseta, caneca, chinelo, cueca, do Santos.

Na hora do primeiro jogo, juro, senti um silêncio na cidade. Como se ela, por inteiro, estivesse prestando atenção nos passos dos jogadores. Quando o Corinthians fez o primeiro gol, então?! Silêncio. Alguns Corinthianos e/ou “do-contras” soltaram gritos. Mas, no geral, estava tudo, inclusive a sala em que me encontrava, silencioso.

E assim permaneceu até o final do jogo. É, não é sempre que se pode ganhar.A avenida da praia ficou vazia durante duas horas, de um domingo de sol! Sim, meninos, eu vi!

Acreditava, de verdade, que isso era apenas clima de uma cidade-média, em que, invariavelmente, a família de algum morador conhece alguém da familia de outro, e por aí vai.

Pois bem, ontem, dia do segundo jogo da final, provou que a reação não acontece apenas em pequenas cidades. E está longe de não ocorrer numa São Paulo em virada cultural.

Moro um tanto perto do Pacaembu, na verdade, para vir para minha casa, da Paulista, pego os mesmos ônibus que as pessoas que vão para o Pacaembu tem que pegar. Eles param na Dr. Arnaldo, e procuram algum que desça a Cardoso de Almeida, ou a própria Av. Pacaembu; eu, continuo até chegar na Heitor Penteado.

Bem naquela tarde, estava voltando da casa de uma amiga minha. Voltando da Furada, quer dizer, Virada Cultural. Presenciei e senti um clima de Santos em São Paulo. Por causa do futebol.

Corinthianos com bandeiras, passando buzinando. Alguns apartamentos com bandeiras do Timão hasteadas, ou colocadas, desajeitadamente, sob o parapeito da janela. Silêncio e um estranho vazio no meio de uma Paulista-de-Domingo (não que, no domingo, a Paulista esteja cheia. Arrisco dizer que ela fica mais lotada na segunda que no domingo, mas tudo bem).

A alegria e a afobação pelo título estavam no ar da cidade. Quando o jogo terminou, então. Rojões, buzinas, gritos, muitos gritos, ecoaram no ar, pelo menos , da zona oeste.

Posso ficar desanimadinha, já que não foi o meu time que ganhou, mas, mesmo assim, é interessante, para não dizer, estimulante, ver que São Paulo tem ares de cidade pequena quando quer. Que, no meio da imensidão dos 10 mi. de habitantes, ainda batam corações torcedores, apaixonados e animados.

É bom saber que, dentro dessa cidade, pulsam pessoas de verdade. E não apenas, figurantes-que-esbarram-na-gente-no-metrô.