Carta ao meu futuro filho

Não sei se vocês sabem, mas quero ter filhos. Dois. Um deles, pelo menos, menino.

E, vide os muitos acontecimentos machistas e homofóbicos vistos nos últimos 2012 anos tempos, achei que era quase imperativo eu fazer uma listinha de coisas que falarei ao meu garoto:

1. Se você vir fotos de você bebê usando macacões rosa, ou roupas com flores: não estranhe. Não farei você aprender que uma cor é ligada a nenhum gênero. Se você ficar lindo de roxo, usará roxo. Se ficar lindo de azul, usará azul. Se ficar mais lindo ainda de cor de burro quando foge a tarde, será essa a cor de sua roupa.

2. Por favor, divida os seus brinquedos. Com todos, sempre! É divertido brincar em conjunto.

3. Brinque com meninas.

4. Tenho certeza que adorará o seu quarto cheio de brinquedos. Carrinhos, bola, panelinhas, vassourinhas e mini-cozinhas.

5. Quando for para a escolhinha, tenha “amiguinhas” e não “namoradinhas”. Meninas e meninos podem ser amigos sem nenhum interesse por trás, e é bom que perceba isso desde pequeno.

6. Se a mamãe seguir pelo caminho que vai no trabalho, é capaz que ela muitas vezes tenha que viajar ou passar algumas horas a mais na redação. Não se sinta desprestigiado ou não-amado. Entenda, a mamãe quis muito ser o que é, desde que era do seu tamanho. Ela ama o que faz um pouco menos do que te ama, mas ama, de qualquer forma.

7. Nunca, em hipótese alguma, tire sarro ou humilhe alguém porque essa pessoa é diferente de você. São todos iguais a você, filho. Trate as pessoas, de todas as idades, gêneros, credo e cor de pele de maneira educada e respeitosa. Sem esperar nada em troca.

8. Nunca seja conivente com humilhações alheias. Ficar em silêncio é tão ruim quanto, de fato, humilhar.

9.  Se você se interessar por futebol, legal. Se gostar de basquete, legal. Se for ballet, legal. Se tiver vontade de tocar tuba, legal. Se quiser fazer teatro, legal.  Nada disso lhe tornará menos menino.

10. Se alguém te chamar de “gay” ou “mulherzinha”, responda: “muito obrigado”.  Nenhum desses nomes é xingamento, não para você, pelo menos. Não entre no preconceito dos outros.

11. Tente duvidar da maioria. Nem sempre aquilo que é bom é feito por todos.

12. Respeite as leis. Nem sempre elas farão um benefício direto para você. As leis existem para um bem comum. Se, depois de você seguir as leis, perceber que algumas não dão certo: fale. Tente mudá-las, não as burle.

13. Nunca trate uma mulher, garota ou menina como objeto. Nem como rainha. Elas são iguais a você.

14. Dentro disso de objeto, não sinta a necessidade de “comprar” alguém. Se for pagar a conta para uma garota com que sair [olha como estou me adiantando!], faça por gentileza, e não porque você quer alguma coisa “a mais” com ela.

15. Não deixe as suas cuecas aparecendo para fora da roupa. É feio e extremamente deseducado. Se você não pode ver a calcinha de uma menina, mesmo quando ela senta de saia, é bom que ela não seja obrigada a ver as suas roupas de baixo. (No ensejo, não olhe a calcinha das meninas, ou o sutiã, elas não são objetos)

16.  Adolescência é complicada, compre Playboys/ G Magazines e veja filmes Pornô, se sentir vontade. Mas coloque na sua cabeça que nada disso é real.

17. Se quiser ter o cabelo comprido, tenha. Caso puxar o meu, ficarei feliz em te dar dicas sobre os melhores shampoos e condicionadores.

18. Se nascer branco, não tema os negros ou suspeite deles. Se nascer negro, não odeie os brancos, mais ódio não é algo que o mundo precise.

19. Quer gostar de metal? Goste! De funk? Goste. De axé? Goste. Desde que não escute nada disso tão alto que incomode as pessoas do seu lado. Ninguém é obrigado a gostar e apreciar aquilo que você gosta.

20. Use sempre camisinha. Sempre.

21. Se nascer hétero e acontecer um “acidente” com a sua namorada, nunca, em hipótese alguma, NUNCA, pergunte : “Você tem certeza que é meu?”. É ofensivo e repulsivo. Ela está falando com você, é lógico que o filho é seu.

22. Se nascer homo e quiser adotar, farei de tudo para ajudar. Mas não peça para eu cuidar sempre de seu filho, a responsabilidade é completamente sua.

23. Caso seu pai faleça, ou ele desaparecer da face da terra, ou eu não ter um companheiro, por favor, não sinta a necessidade de ser o “homem da casa”. Na verdade, não use a expressão “homem da casa” em hipótese alguma.

24. Nunca “compre” de fato, uma mulher. Nem seja conivente com isso. É degradante.

25. Não se sinta “menos homem” se, por ventura, você chorar, quiser mostrar seus sentimentos, cuidar de sua aparência ou achar que seus pensamentos são complicados.

26. Gostar de meninos não te fará menos homem. Continuará sendo o meu garoto!

27. Ficar com muitas meninas não te fará mais homem! Acredite.

28.  Se uma menina estiver se “insinuando” para você, rolar aquele clima e ela falar não. Respeite-a. Não é sempre não.

29. Nunca, de hipótese alguma, diga coisas indecorosas para uma mulher que não conhece. Principalmente se ela estiver andando na rua.

29. Evite brigar. Se acontecer algum desentendimento, e, acredite, eles vão acontecer bastante, não se valha da sua força, além da do argumento.

30.  Nunca, em hipótese alguma, nunca, nunca, se aproveite de ninguém que está em um estado pior do que o seu.

31. Aprenda a lavar, passar e cozinhar. Não precisará pagar ninguém para fazer isso, muito menos pedir que sua parceira faça por você.

Sou nova, ainda vai demorar um pouco para eu ter filhos. Então, se tiver um menino, siga um pouco dessa lista. Ensine essas coisas pro seu filho. Talvez a sociedade se torne mais equalitária daqui a um tempo.

Igualdade, sem mais

Vi um casal, menino e menina, andando de mãos dadas hoje na Paulista. Ela mais baixa, ele a abraçando com um braço, pela esquerda.Passavam-me tanta tranquilidade que fiquei feliz por eles. Vi outro casal, menino e menino, também na Paulista. No McDonalds, sentados, conversando com as mãos unidas em cima da mesa. Me comovi pelos olhares que trocavam e também fiquei feliz pelo tipo de sentimento que percebi entre ambos.

Não defendo a homossexualidade, simplesmente porque não acho que ela é uma vergonha ou um problema ou um desvio, dessa forma, não precisa ser justificada e muito menos defendida. Respeito tudo que tem a ver com o mundo gay, assim como respeito tudo que tem a ver com o mundo feminino e com o mundo masculino. Afinal, realmente acredito que somos todos iguais.

Por isso vejo a homofobia de maneira tão estranha. Para mim, honestamente, ela não faz sentido algum. Se homens e mulheres são iguais, não faz diferença se eles se gostem entre eles, elas ou êlas. É simples, bizarramente simples. Não sei porque assusta tanto. Aliás, até consigo pensar o porquê. mas ele não me convence a ponto de tornar este sentimento plausível.

Outra coisa que não compreendo: pessoas que diferem homofobia de machismo. Não compreendo, de verdade. O que mais escuto desse pessoal que é “contra” a homossexualidade (como se tivesse como ser contra algo que vem da pessoa. é como ser contra existirem pessoas de cabelo enrolado ou ser contra a existência de ruivos) é que um homem gay, por exemplo, incomoda por ter atitudes femininas “anti-naturais”. Se uma pessoa não consegue respeitar outra por achar que esta tem “traços femininos”, como ela consegue respeitar alguém totalmente feminino? Como consegue respeitar, cem por cento, uma mulher?

E o que raios significa ser homem ou ser mulher? O que raios significa ter feminilidade ou ter traços femininos? Significa falar mais baixo? Andar rebolando? Ter algum cacoete com a mão? Usar roupas apertadas? Pintar as unhas? Se preocupar com a aparência? Vocês conseguem enxergar como a visão do gay é absurdamente preconceituosa com a mulher?  E a masculinidade?O que é? É usar roupas largas? Falar grosso? Andar de maneira desengonçada?Coçar as partes íntimas? Gostar de futebol? Usar o cabelo curto? Novamente, simplificação do que é ser homem. Como conseguiram transformar o lado psicológico do gênero em pequenas ações idiotas que não significam porcaria nenhuma? E como as pessoas conseguem cair nessa história?

A Agenda Política Gay: 1. Igualdade 2. Ver o item 1

“Mas não é normal. Se fosse, um casal de gays poderia conceber um filho”. Toda vez que escuto alguma frase do gênero, a minha vontade é de perguntar se a pessoa em questão usa algum método contraceptivo. Porque se usa, bem, ela também não é normal, afinal não está transando pra conceber. E ainda falam da anatomia. Volto à vontade de perguntar, na lata, se a pessoa faz ou já recebeu um boquete. Porque se sim, bem, ela também não é natural. Afinal, segundo a natureza pregada por esta mesma pessoa, bem, a boca não foi feita para isso. Se, segundo eles, o ânus só foi feito para…defecar. A boca ‘só’ foi feita pra se comer e beber.

O normal é conformado. O normal é juiz, jurado e júri. O normal não aceita questões. O normal não aceita. O normal não muda, é igual desde que nos conhecemos por gente. Por que, então, o normal é bom? Novamente, não faz sentido algum.

De qualquer forma, acho que prefiro focar nos casais que vi hoje. Um segredinho: o segundo estava mais feliz que o primeiro. Acho que hoje podia, eles tinham lá os seus motivos.