Diário de uma Mostra – Parte III – A Crítica

Existe uma grande diferença entre jornalista cultural e crítico de ‘arte’. Por menos que as pessoas achem, essa diferença é mais do que afiada, e precisa ser descrita. É bem comum que, mesmo jornalistas, achem que ser jornalista cultural significa escrever críticas de filmes, exposições artísticas, shows e afins. Bem, não é.

Olhar crítico é diferente de olhar do crítico

Aqui em Tiradentes existe um divisão bem nítida entre os repórteres, os repórteres de TV e os críticos. Como todos são chamados de imprensa, acabam se misturando na hora das refeições. Não quero aqui falar do lado pessoal, a maioria das pessoas que conversei são bastante legais, engraçadas e seriam [ou serão] bons amigos assim que se tiver tempo para conhece-las. O problema é que precisa ser colocada essa diferença.

Eu, enquanto jornalista cultural – e é a primeira vez que me coloco dessa maneira, como jornalista, como repórter, e não como uma wannabe-artista – não posso me deixar levar por opiniões. Se o filme não me agrada, a pergunta que me faço é “por que?”, logo em seguida, questiono sobre quais as questões que levaram a produção a chegar naquele produto. Não é que a minha opinião não me importa, apenas acredito que ela não vai ajudar em nada para a matéria que escreverei.

Opinião por opinião, então cada bar pode ser uma redação de jornal. Todos tem opinião, todos tem gosto. Podemos discutir durante horas sobre apuro de gosto, sobre conhecimento de causa, mesmo assim, a real é que qualquer pessoa pode desgostar de um filme e  dar razões do porque desgostou. O crítico, porém, acha que é a principal voz de opinião sobre o filme no planeta.

É exatamente essa postura que desgosto. Aliás, é uma postura que me irrita, pois é de uma arrogância ímpar. Certo, o crítico de cinema , nesse caso em específico, estudou muito sobre, ou sabe bastante sobre história de cinema. Mas, de verdade, por que ele sabe mais do que qualquer pessoa da plateia? Por que ele acha que pode influir na plateia? Chamar filme de ‘cilada’ ou de ‘o melhor de todos os tempos’? Quem se importa?

Vou voltar a falar o que coloquei no primeiro post sobre Tiradentes. Não existe um público melhor do que o outro, isso quer dizer que, não existe espectador melhor ou espectador pior. Acredito que seja muito fácil criticar abertamente uma obra já pronta; ela está lá , sim, para ser questionada. Só que, me desculpa, questionar por questionar, questionar baseando-se apenas em opinião pessoal, baseando-se apenas em um pseudo-conhecimento ou em uma ironia fina idiota de gente que se acha mais inteligente que o resto do mundo, é pura arrogância.

Se acham críticos da Cahiers du Cinema dos anos 60. Sério, se vi algum Godard ou algum Truffault por aqui, por entre os críticos, devo ter sido muito cega de simplesmente deixar passar. Se tem algo que me tira do sério no mundo é a existência de pessoas profissionalmente babacas.

Tiradentes anda me mostrando que prefiro a apuração à opinião; a humildade à arrogância e a simplicidade à babaquice.

PS: #prontofalei

Diário de uma Mostra – Parte I – O Público

Estou há um ano na Revista de CINEMA, com muito orgulho digo isto. Já que, neste um ano passei por muitos perrengues de fechamento, queda de pauta e matérias mal-escritas. De qualquer forma, com este um ano, ‘ganhei’ uma coisa do chief: a oportunidade de cobrir a Mostra de Tiradentes. Se vc não conhece mto de cinema brasileiro – tudo bem, eu também era assim – a Mostra de Tiradentes é uma das principais mostras de cinema independente do país.

Durante sete dias, mais de 100 filmes passam nas telas instaladas na praça da cidade e no centro cultural.Tiradentes é tão pequena que não tem cinema, bizarro ela ser uma das Mecas do cinema independente nesses dias de Mostra. De qualquer forma, temos aqui, no mesmo local: diretores de cinema, produtores, associações, críticos e… o público. E, é sobre esses últimos que quero falar hoje.

Ontem aconteceu a abertura da mostra, com a exibição do filme Viajo porque preciso, Volto porque te amo, de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes (Karim foi o diretor de Céu de Suely; Marcelo Gomes diretor de Cinema, Aspirinas e Urubus; dois filmes muito bons da chamada ‘nova safra’ do cinema brasileiro). Já tinha assistido a esse filme na Mostra Internacional – outro evento que tive o prazer de cobrir pela Revista – e tinha viajado mais que a personagem principal para poder entender as distorções imagéticas que o filme traz nas telas. Gostei tanto do filme da primeira vez como se pode gostar de uma comida simples. Não me tocou, não me comoveu tanto, mas entendi o propósito dos diretores, e os respeito por isso.

Desta segunda vez que assisti, o meu gosto por ele aumentou, e boa parte das tentativas experimentais dos diretores não passaram incólumes ao meu olhar. Não que tenha o olhar treinado ou algo assim, só que existem coisas que só percebemos ao assistir um filme muitas vezes (para para meu pensamento: filmes bons são tão densos como pessoas, precisamos de certa convivência com ele para poder entendê-lo e o apreciar da maneira que merece).

Como um filme experimental e de narrativa nada clássica, lógico que sabia que uma boa parte do público não iria compreender a viagem. Não iria aceitar o acordo no começo do filme, portanto, não viajaria junto com ele. Isto me deixou um tanto incomodada, no começo da sessão todos batiam palmas loucamente, queriam muito ver o filme. Lógico, toda a pompa da abertura bateu na cabeça dessas pessoas, e elas estavam ansiosas para assistir o longa. Sabia que ia dar merda, e …bem…. não que tenha dado, mas foi desconfortável.

Não acredito na existência de um público melhor que o outro, acredito que existam públicos de perfis diferentes. Quando se tem uma obra deste tipo, experimental como é, o tipo de abstração que temos que ter é bem maior que quando nos é colocado um filme de narrativa e linguagens clássicas. Um filme não é melhor do que o outro, e quero deixar isso bem claro. Eles apenas exigem contrapartidas diferentes do público. Assim como o próprio público espera contrapartidas diferentes destes filmes. É algo simbiótico.

Escutava os comentários sobre o filme absorta no que estavam falando. Absorta nas palavras “estranho” ou “parado”; absorta na reação adversa das pessoas. Não quero aqui criticá-las, acho que cada um pode ter a arte que quer. Só quero mostrar que às vezes o nosso costume nos cega, paralisa nossos sentidos. Somos tão bombardeados por uma linguagem única, por uma narrativa única, que nossa capacidade cognitiva se congela, e qualquer coisa que foge desse estilo a que estamos acostumados já é taxado de ruim.

Fiquei pensativa quando as palmas esparsas ecoaram na plateia, durante o final do filme. Palmas educadas e de praxe pois o diretor estava presente. Pensei nos dois lados: no do público e no dos artistas. Será que o público era obrigado a entender? Será que os artistas tinham que se fazer entender? Será que é necessário se entender algo para embarcar na viagem?

E, enquanto saía pensando em todas essas possibilidades artísticas, escutei a conversa de quatro pessoas sentadas ao fundo da sala. Elas estavam discutindo o filme, discutindo os sentimentos, revendo as imagens. E percebi, que é por isso, é para isso que Karim e Marcelo fizeram seu filme.

Não importa o quanto se atinge, mas como se atinge.