Diário de uma Mostra – Parte VII – A Praça

Qualquer pessoa de uma cidade pequena e não-litorânea sabe da importância social de uma praça. É o lugar em que todos se encontram,  quase uma balada a céu aberto. Como já disse nos posts anteriores, na Mostra de Tiradentes uma parte da programação é exibida no meio da praça principal da cidade.

A pousada em que eu estou, por coincidência do destino (ou não), fica na lateral desta praça, ou seja, todo o burburinho não passa incólume por mim. De qualquer forma, preciso comentar por aqui que a exibição do filme na praça dobra a sua força. O som a céu aberto, misturado com as pessoas que passam na rua e o burburinho dos bares ao lado faz com que os filmes tenham que se sobressaltar para não serem engolidos.

se a praça é do povo, o cinema nacional então...

Castro Alves bradou: “A praça é do povo”. Essa praça de Tiradentes comprova aquilo que muitos desacreditam: o filme nacional faz sim sucesso. Sempre se falou isso, principalmente na época do Cinema Novo, que o povo brasileiro não gosta do cinema nacional. Os filmes tão famosos por estudantes de cinema e por cineastas não eram tão solúveis para os olhos não treinados. Bem, passou-se o tempo, e veio a ecatombe Collor, ou a ecatombe-Embrafilme, passamos muito tempo com uma produção incipiente, e isso fez com que esse argumento se fortalecesse.

Não vou ficar aqui falando de tudo que mudou com relação as políticas públicas para cinema no país, é fato consumado que se tem mais dinheiro voltado para cineastas. O que quero dizer é que a emoção fala com o público, e quando ela consegue fazer isso direito, simplesmente, não importa em que língua ela venha, ou se foi feita com baixo ou altissimo orçamento. Esta praça pertence ao cinema, assim como o cinema pertence a ela.

Escutar a reação do publico, ver que pessoas ficam no fundo, em pé, assistindo aos filmes mostra que o interesse não vem por causa da gratuidade dos filmes. As pessoas riem, choram e falam com os filmes exibidos. Mesmo. Hoje a noite tive a oportunidade de ver três velhinhas que estavam sentadas no banco da praça se calarem, absortas, no Hebert de Perto, documentário desta noite designado para passar no local.

Cinema é emoção, é sentimento,é vida pulsante e tem que ser acessível! A praça ecoa a vontade do público. Poderia ecoar a vontade pública…

Diário de uma Mostra – Parte VI – Os Filmes

Sim, tinha que falar de filmes alguma vez na vida durante a minha estadia por aqui. E, sim, vou fazer um dia depois de ter visto o melhor filme do festival, aliás, os três melhores filmes do festival. Três curtas que passaram seguidos na sessão da praça. Comecemos com o fato dos curtas terem passado na tela instalada no meio da praça principal. Depois de quase uma semana, não choveu ontem, o céu estava límpissimo com direito a lua cheia e estrelas [sim, consigo ver muitas estrelas no céu de Tiradentes].

Tinha acabado de sair de outro filme muito gostoso, Um Lugar ao Sol, do pernambucano Gabriel Mascaro. Todos riram com as declarações tão reais que beiravam o absurdo.  Só uma parada para explicar sobre este documentário, que falou sobre os moradores de coberturas. Ou seja, uma pequena mostra do que a classe rica brasileira pode nos falar, tiveram momentos memoráveis nesse doc. como quando uma mulher falou de como via os tiroteios do morro do lado de sua cobertura como ‘fogos de artifício’.

Pois bem, não foi este o melhor filme. O melhor veio depois de dois curtas ótimos. O primeiro falava sobre o movimento gay do Brasil; o segundo sobre o movimento da música brega de Recife (uma câmera absurdamente sem julgamentos, muito respeitosa). Isso tudo preparou o terreno para Recife Frio, de Kléber Mendonça Filho.

E se o Recife ficasse gelado?

O filme parte de uma premissa interessante, simples e, ao mesmo tempo, complexa: e se o Recife ficasse frio? Montado como se fosse uma reportagem de tv argentina – como um globo reporter – o filme conta com cenas verdadeiras do Recife,  e com alguns depoimentos ficticios de ‘personagens’ da cidade. Segundo o produtor Juliano Dormelles, o filme demorou 3 anos para ser feito. Kléber passou todo esse tempo filmando Recife quando chovia e algumas outras cidades.

As ironias presentes no filme são incriveis. Mesmo a situação sendo apresentada como irreal, a crítica do filme é bem atual, e bastante ligada à realidade.  A rua vazia gravada por Kléber era a do Recife ‘quente’; a praia vazia era do mesmo Recife turístico. Mas, a melhor sacada do filme, é mostrar que a sociedade se adaptaria a uma inversão de certezas, mas continuaria tão hipócrita tanto. Nem preciso falar da parte técnica do filme, que é primorosa, essa brincadeira entre a ficção e o real é acentuada pelo absurdo.

Esse curta foi ovacionado três vezes depois dos créditos. Todos ficaram em choque. Eu fiquei mais do que isso. Fiquei atonita, o filme mexeu comigo. Não ele sozinho, mas a conjunção de fatores elevou a experiencia de te-lo assistido à enésima potência.

Diário de uma Mostra – Parte V – A(s) Língua(s)

– Aqui, bom festival procê também.

Assim que  a atendente da lotérica, que fica aqui do lado do hotel,  se despediu de mim. Ela achou muito engraçado o fato de eu ter um livro na bolsa, achou isso um habito “de paulista”. Nem precisei falar da onde era para as pessoas da fila, quando o casal começou a falar comigo, a mulher logo falou com toda a sua lógica “vc é de são paulo, não?” num tipo de pergunta que mais tinha tom de constatação que outra coisa. Resignei-me ao fato de que meu sotaque me denuncia.

Nunca tinha pensado na maneira de falar paulista como algo tão marcado, mas, segundo outro mineiro com quem conversei (um diretor de curtas), paulista tem um ritmo meio cantado. Estranho, sempre achei isso dos mineiros. É, deve ser algo de meu ouvido! Ou não…

Aqui na Mostra o que é mais comum é se encontrar pessoas dos mais variados sotaques do país conversando juntas em alguma mesa dos restaurantezinhos. Na área de imprensa então, parece a torre de babel. Misturam-se cearenses, pernambucanos, bahianos, mineiros, paulistas, cariocas [e fluminenses], paranaenses, goianos e gaúchos. Além disso, temos ainda uns sotaques de franceses falando em ingles, ou em um francês tão rápido que, mesmo se soubesse a língua, não saberia decodificar. Um desses franceses me concedeu uma entrevista (Fabien Gaffez, faz parte de um dos olheiros da semana da crítica, do Festival de Cannes, a entrevista tá aqui), a chuva caía muito forte na parte de fora, foi um caos para entender o inglês dele com sotaque gravado no meu mp4.

Em uma das entrevistas coletivas, um desenhista de som – sim, existe essa profissão – foi para a frente falar sobre Terras, o documentário que tinha ajudado a produzir [junto de Maya Da Rin, outra pessoa com quem falei, veja aqui]. Ele começou a falar do universo sonoro do documentário, e de como tinha sido a pesquisa para tornar o filme o mais natural possível, e como ele mexeu com universos sonoros desconhecidos para desenhar os ritmos do filme. Pois bem, Tiradentes é assim para mim.

Podem falar como quiserem, e não entender algumas de minhas gírias. Eu mesma posso não entender muitas outras gírias, ou achar estranha a maneira como o ritmo mineiro desenha ondulações no ar. Mas, aqui,  por aqui, é como se todos falassem uma língua só, o cinema. E ela consegue conectar a todos.

Diário de uma Mostra – Parte IV – O Tempo

Fato consumado : qualquer paulistano que saia minimamente de São Paulo por mais de dois dias sente uma total diferença no relógio biológico. É como se o corpo estivesse tão acostumado com o ritmo insano da lista de tarefas, que quando não tem um tic tac controlando, começa a doer. Bem, não posso dizer que não tenho coisas para fazer durante a Mostra de Tiradentes, já fiz algumas entrevistas, pretendo fazer outras por esses dias, e escrevi uma boa quantidade de textos para o site da revista.Mas, acima de qualquer coisa, posso afirmar que o ritmo da cidade é completamente….destoante.

Nos restaurantes, espera-se muito mais para receber a comida, por exemplo. É como se eles quisessem que o almoço fosse uma refeição completa, não só com direito a comida, mas também, com um espaço para que as pessoas conversem à mesa. É estranho ver o quanto esse hábito tem sido esquecido por mim mesma, é como se a mesa só servisse para apoiar a minha bolsa, ou para apoiar meu prato enquanto como de maneira rápida e objetiva.

O que é ridículo, visto que o corpo não consegue se acostumar a esse ritmo insano. Até consegue, para falar a verdade, mas perde uma boa parte de sua sensibilidade. Aqui consigo sentir o gosto de cada coisa que como. Se a vagareza me irrita? Sim, bastante. Principalmente quando se tem uma boa quantidade de filmes para se ver, como é o caso de Tiradentes. Só que não há como lutar contra ela, sabe? Então, tento desfrutá-la.

É muito estranho que o ritmo da Mostra não consiga casar com o ritmo da cidade. Dá para perceber pelo jeito da cidade, que a quantidade de horários e eventos dessa mostra destoam do cotidiano das pessoas. Estamos falando de uma cidade em que o principal restaurante [Atrás da Matriz] não funciona no almoço durante a semana, poxa vida!

A quantidade de cineastas que andam por essas ruas é quase tão grande quanto a quantidade de cinéfilos presentes na cidade apenas para o evento. E isso muda o tempo, muda o ritmo e o padrão. O cinema é muito mais do que imagens em movimento, são pessoas em movimento!

PS: Lembrei da música homônima dos Móveis Coloniais de Acaju…

Diário de uma Mostra – Parte III – A Crítica

Existe uma grande diferença entre jornalista cultural e crítico de ‘arte’. Por menos que as pessoas achem, essa diferença é mais do que afiada, e precisa ser descrita. É bem comum que, mesmo jornalistas, achem que ser jornalista cultural significa escrever críticas de filmes, exposições artísticas, shows e afins. Bem, não é.

Olhar crítico é diferente de olhar do crítico

Aqui em Tiradentes existe um divisão bem nítida entre os repórteres, os repórteres de TV e os críticos. Como todos são chamados de imprensa, acabam se misturando na hora das refeições. Não quero aqui falar do lado pessoal, a maioria das pessoas que conversei são bastante legais, engraçadas e seriam [ou serão] bons amigos assim que se tiver tempo para conhece-las. O problema é que precisa ser colocada essa diferença.

Eu, enquanto jornalista cultural – e é a primeira vez que me coloco dessa maneira, como jornalista, como repórter, e não como uma wannabe-artista – não posso me deixar levar por opiniões. Se o filme não me agrada, a pergunta que me faço é “por que?”, logo em seguida, questiono sobre quais as questões que levaram a produção a chegar naquele produto. Não é que a minha opinião não me importa, apenas acredito que ela não vai ajudar em nada para a matéria que escreverei.

Opinião por opinião, então cada bar pode ser uma redação de jornal. Todos tem opinião, todos tem gosto. Podemos discutir durante horas sobre apuro de gosto, sobre conhecimento de causa, mesmo assim, a real é que qualquer pessoa pode desgostar de um filme e  dar razões do porque desgostou. O crítico, porém, acha que é a principal voz de opinião sobre o filme no planeta.

É exatamente essa postura que desgosto. Aliás, é uma postura que me irrita, pois é de uma arrogância ímpar. Certo, o crítico de cinema , nesse caso em específico, estudou muito sobre, ou sabe bastante sobre história de cinema. Mas, de verdade, por que ele sabe mais do que qualquer pessoa da plateia? Por que ele acha que pode influir na plateia? Chamar filme de ‘cilada’ ou de ‘o melhor de todos os tempos’? Quem se importa?

Vou voltar a falar o que coloquei no primeiro post sobre Tiradentes. Não existe um público melhor do que o outro, isso quer dizer que, não existe espectador melhor ou espectador pior. Acredito que seja muito fácil criticar abertamente uma obra já pronta; ela está lá , sim, para ser questionada. Só que, me desculpa, questionar por questionar, questionar baseando-se apenas em opinião pessoal, baseando-se apenas em um pseudo-conhecimento ou em uma ironia fina idiota de gente que se acha mais inteligente que o resto do mundo, é pura arrogância.

Se acham críticos da Cahiers du Cinema dos anos 60. Sério, se vi algum Godard ou algum Truffault por aqui, por entre os críticos, devo ter sido muito cega de simplesmente deixar passar. Se tem algo que me tira do sério no mundo é a existência de pessoas profissionalmente babacas.

Tiradentes anda me mostrando que prefiro a apuração à opinião; a humildade à arrogância e a simplicidade à babaquice.

PS: #prontofalei

Diário de uma Mostra – Parte II – A Cidade – e as cores

No meio dessas ruazinhas que acontece a Mostra. Para falar a verdade, é no lugar de intersecção dessas ruas, nas praças. Algo muito mais raíz, o cinema aqui é exibido ao ar livre, com direito a muitas pessoas sentadas no chão, e ao barulho de chuva martelando no topo da tenda principal. Sim, para essa segunda parte do meu diário de bordo escolhi escrever sobre o movimento da cidade, algo que chama tanto minha atenção quanto os filmes da Mostra.

Quando se entra, percebe que é uma cidade pequena, calma, mas com alguns resquícios de turística. Percebe-se pelos barzinhos e restaurantes que aqui recebe um número considerável de pessoas pelo ano inteiro. Sigo a lógica de que, se não houvesse ninguém na cidade, não haveria nem metade das lojinhas de artesanato.Por ter nascido em uma cidade turistica, conheço muito bem as dinâmicas que um tipo de local assim oferece.

Mesmo assim, mesmo com a estrutura toda, é bom ter a ideia de que a cidade em que se está é mais calma que a cidade da qual você veio. As portinhas e janelinhas, com os parapeitos coloridos, dão um ar nostálgico. A rua de pedra acastanhada sob o sol da tarde faz com que eu fique com vontade de voltar ao tempo, jogar meus aparelhos eletrônicos fora e começar a viver de agricultura. Outro fator que me ajuda muito nessa vontade de voltar para o século XIX é o fato de meu celular não funcionar em Minas Gerais (problemas da Vivo com a TeleMig – ou melhor Oi!).

No meio da convulsão de pessoas, personalidades, anonimos e cineastas que transitam nos arredores do QG da Mostra – o Centro Cultural – consegui fugir ontem, e andar pela cidade, calmamente. Conversei com alguns donos de lojas e restaurantes, que diziam, quase como num discurso único, o quanto gostavam da mostra e da cidade lotada deste jeito. Sorria a cada resposta, assim como eles sorriam ao saber o quanto gostei daqui.

Enquanto tirava fotos e conhecia a cidade, escutei um barulhinho de bateria. Fui procurar, e descobri o Cortejo das Artes. Durante a Mostra acontece esse Cortejo para a comemoração do aniversário de Tiradentes. Ao som de marchinhas de carnaval, as pessoas da cidade, de fora da cidade, de fora do estado, de fora do país e do planeta, praticamente, pulam pelas ruazinhas em um carnaval antigo e fora de época.

O colorido dessa cidade é diferente,  ela me lembra o Terracota, acho que por causa das estradinhas de pedra… É interessante se observar isso, se sentir as cores que vem de todos os lados. Parece que São Paulo é tão cinza, na verdade, não culpo a cidade, a rotina acinzenta os locais.

Ontem Tiradentes foi uma explosão de cores, algumas crianças estavam fantasiadas. O eco da bateria e dos metais das marchinhas alaranjaram o ambiente; enquanto algumas pessoas o deixaram mais verde. Tudo isso embaixo de um céu azul incrível.

Aqui em Minas a calma e o movimento caminham lado a lado. Ainda bem.

Pra ver a banda passar....

Diário de uma Mostra – Parte I – O Público

Estou há um ano na Revista de CINEMA, com muito orgulho digo isto. Já que, neste um ano passei por muitos perrengues de fechamento, queda de pauta e matérias mal-escritas. De qualquer forma, com este um ano, ‘ganhei’ uma coisa do chief: a oportunidade de cobrir a Mostra de Tiradentes. Se vc não conhece mto de cinema brasileiro – tudo bem, eu também era assim – a Mostra de Tiradentes é uma das principais mostras de cinema independente do país.

Durante sete dias, mais de 100 filmes passam nas telas instaladas na praça da cidade e no centro cultural.Tiradentes é tão pequena que não tem cinema, bizarro ela ser uma das Mecas do cinema independente nesses dias de Mostra. De qualquer forma, temos aqui, no mesmo local: diretores de cinema, produtores, associações, críticos e… o público. E, é sobre esses últimos que quero falar hoje.

Ontem aconteceu a abertura da mostra, com a exibição do filme Viajo porque preciso, Volto porque te amo, de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes (Karim foi o diretor de Céu de Suely; Marcelo Gomes diretor de Cinema, Aspirinas e Urubus; dois filmes muito bons da chamada ‘nova safra’ do cinema brasileiro). Já tinha assistido a esse filme na Mostra Internacional – outro evento que tive o prazer de cobrir pela Revista – e tinha viajado mais que a personagem principal para poder entender as distorções imagéticas que o filme traz nas telas. Gostei tanto do filme da primeira vez como se pode gostar de uma comida simples. Não me tocou, não me comoveu tanto, mas entendi o propósito dos diretores, e os respeito por isso.

Desta segunda vez que assisti, o meu gosto por ele aumentou, e boa parte das tentativas experimentais dos diretores não passaram incólumes ao meu olhar. Não que tenha o olhar treinado ou algo assim, só que existem coisas que só percebemos ao assistir um filme muitas vezes (para para meu pensamento: filmes bons são tão densos como pessoas, precisamos de certa convivência com ele para poder entendê-lo e o apreciar da maneira que merece).

Como um filme experimental e de narrativa nada clássica, lógico que sabia que uma boa parte do público não iria compreender a viagem. Não iria aceitar o acordo no começo do filme, portanto, não viajaria junto com ele. Isto me deixou um tanto incomodada, no começo da sessão todos batiam palmas loucamente, queriam muito ver o filme. Lógico, toda a pompa da abertura bateu na cabeça dessas pessoas, e elas estavam ansiosas para assistir o longa. Sabia que ia dar merda, e …bem…. não que tenha dado, mas foi desconfortável.

Não acredito na existência de um público melhor que o outro, acredito que existam públicos de perfis diferentes. Quando se tem uma obra deste tipo, experimental como é, o tipo de abstração que temos que ter é bem maior que quando nos é colocado um filme de narrativa e linguagens clássicas. Um filme não é melhor do que o outro, e quero deixar isso bem claro. Eles apenas exigem contrapartidas diferentes do público. Assim como o próprio público espera contrapartidas diferentes destes filmes. É algo simbiótico.

Escutava os comentários sobre o filme absorta no que estavam falando. Absorta nas palavras “estranho” ou “parado”; absorta na reação adversa das pessoas. Não quero aqui criticá-las, acho que cada um pode ter a arte que quer. Só quero mostrar que às vezes o nosso costume nos cega, paralisa nossos sentidos. Somos tão bombardeados por uma linguagem única, por uma narrativa única, que nossa capacidade cognitiva se congela, e qualquer coisa que foge desse estilo a que estamos acostumados já é taxado de ruim.

Fiquei pensativa quando as palmas esparsas ecoaram na plateia, durante o final do filme. Palmas educadas e de praxe pois o diretor estava presente. Pensei nos dois lados: no do público e no dos artistas. Será que o público era obrigado a entender? Será que os artistas tinham que se fazer entender? Será que é necessário se entender algo para embarcar na viagem?

E, enquanto saía pensando em todas essas possibilidades artísticas, escutei a conversa de quatro pessoas sentadas ao fundo da sala. Elas estavam discutindo o filme, discutindo os sentimentos, revendo as imagens. E percebi, que é por isso, é para isso que Karim e Marcelo fizeram seu filme.

Não importa o quanto se atinge, mas como se atinge.