Vasos, cicatrizes e ouro

Nas últimas semanas li, emocionada, uma série de relatos de amigas, colegas e mulheres desconhecidas pela internet. A razão, caso não estejam muito acompanhando o que vem ocorrendo pela web, foram duas campanhas em forma de hashtag: #primeiroassédio e #meuamigosecreto.

Ao usar essas hashtags, muitas mulheres acabaram por escrever sobre situações complexas e, por que não dizer, traumatizante pelo qual passaram: desde o primeiro assédio a relacionamentos abusivos. Fiquei, como todos, bastante tocada e emocionada ao ler a história de garotas em volta de mim, histórias de mulheres que admiro. Uma sensação que, infelizmente, não é nova para mim, cuja família é marcada por mulheres fortes com suas histórias revoltantes e tristes.

Isso tudo me fez lembrar de algo que li há um tempo, sobre vasos japoneses. Sim, vasos japoneses.

kintsugi

Existe uma técnica japonesa super antiga de recuperar vasos (e utensílios em geral, tipo pratos) chamada “Kintsugi” (ou “Kintsukuroi“). Essas palavras significam, mais ou menos, “marcenaria de ouro” ou “recuperar com ouro“.

Se um vaso quebra ou tem algum tipo de dano, na hora de restaurá-los, eles colocam uma liga de ouro, prata ou cobre para colar os pedaços de volta. O resultado fica parecido com essa foto aí de cima: os rasgos, as cicatrizes do vaso ficam a mostra.

No lugar de recuperá-los do jeito que eles eram antes da queda, antes de serem lascados, os japoneses preferem mostrar que a queda existiu. E o mais interessante disso tudo: o objeto fica mais forte. A porcelana, frágil, ganha força com os veios de ouro.

coffret_kintsugi_sarkis_hd

Essa técnica de restauração faz parte de uma filosofia secular japonesa chamada “wabi-sabi”. Para a arte, o “wabi-sabi” é uma veia estética que valoriza as falhas. Significa “beleza com falhas”. Como filosofia, é uma ideia que aceita a transitoriedade e a imperfeição da vida.

É dolorido ter um passado ruim. É dolorido ter vivenciado histórias tristes, histórias de abuso, de violência, de relacionamentos abusivos, de pessoas horrorosas, de fraquezas, de rejeição e de humilhação (essas duas últimas sei na minha pele, galera). A primeira sensação que temos é que o vaso quebrou e que nunca mais vai ser o mesmo. Que a gente quebrou e nunca mais vai ser o mesmo.

É assustador, lógico, porque ninguém sonha em ser quebrado. Ninguém sonha em ter rachaduras. Ninguém acorda e pensa: “puxa, que belo dia para se quebrar todinho”. Mas elas acontecem, é da vida elas acontecerem, e acontecem nos momentos que menos esperamos.

Usar o ouro é aceitar que, sim, essas situações horríveis aconteceram, que elas te marcaram como cicatrizes e que nunca será o mesmo depois disso. Você será uma pessoa melhor. Mais forte, mais bonita, mais brilhante e mais resistente.

E acho que todas essas hashtags, toda vez que alguém compartilha uma dor, é uma liga de ouro que ela acrescenta ao seu corpo. É uma linha dourada a mais nas lacunas que a vida, sem explicação alguma, deixou na gente.

20130429_78606

Anúncios

Não amigo, você não está agradando

Não, amigo, você não está agradando quando ‘faz carinho’ no cabelo de uma garota na balada.

Não, amigo, você não está agradando quando fala ‘linda’, ‘gostosa’, ‘maravilhosa’ ou qualquer outro “adjetivo” para uma desconhecida na rua. Independente do seu tom de voz.
Não, amigo, você não está agradando quando fala, aos risos, que sua colega, amiga ou companheira está irritada porque “está naqueles dias”.
Não, amigo, você não está agradando quando faz a piada do cadeado e da chave*.
Não, amigo, você não está agradando quando fala para um colega que descobriu que será pai de uma menina que ele terá “que comprar uma arma” ou que ele vai “deixar de ser consumidor para ser fornecedor”.
Não, amigo, você não está agradando quando duvida que uma mulher loira possa ser inteligente, inclusive mais inteligente que você. Ah, e nem quando faz piadas de loiras.
Não, amigo, você não está agradando quando pede, em forma de escárnio, “então me explica qual é a regra do impedimento” para uma garota que diz gostar de futebol.
Não, amigo, você não está agradando quando ri e aponta para mulheres gordas ou baixas ou mais velhas quando elas vestem roupas mais curtas ou mais ousadas.
Não, amigo, você não está agradando quando entra em matérias/galerias sobre musas do esporte, mensalão, julgamento e afins. Nem quando você faz ou pauta um tipo de matéria assim.
Não, amigo, você não está agradando quando você grita, na rua,  ‘gorda’ para uma mulher acima do peso.
Não, amigo, você não está agradando quando pergunta “de brincadeira” se uma menina conhece mesmo a banda estampada na camiseta dela. E agrada ainda menos se pedir que ela cite, pelo menos, um x número de álbuns dessa banda.
Não, amigo, você não está agradando quando chama ou se refere a uma mulher com um diminutivo num ambiente de trabalho e fora de qualquer tipo de contexto
Não, amigo, você não está agradando quando afirma que “atrás de um grande homem tem sempre uma grande mulher”.
Não, amigo, você não está agradando quando questiona a capacidade manual de uma mulher só porque ela é mulher.
Não, amigo, você não está agradando quando fala para uma lésbica que ela só gosta de mulher porque ela não encontrou um homem certo. Aliás, se você usa a expressão “homem certo”, você realmente não deve agradar muito.
Não, amigo, você não está agradando a sua amiga quando você fala para ela dar em cima do chefe para subir de cargo.
Não, amigo, você não está agradando quando “elogia” o decote de uma desconhecida na rua.
Não, amigo, você não está agradando quando diz que uma menina é pra namorar e a outra para pegar.
Não, amigo, você não está agradando quando coloca a mão na perna de uma mulher desconhecida no transporte público.
Não, amigo, você não está agradando quando fala para uma garota “feia” que ela deveria lhe agradecer por você ter beijado ela.
Não, amigo, você não está agradando quando você sabe que recebe mais que a sua colega de trabalho e diz “mas o ambiente está mudando, as mulheres já estão no poder”.
Não, amigo, você não está agradando quando fala “mulher gosta de dinheiro, quem gosta de homem é gay”.
Não, amigo, você não está agradando quando bate no peito de orgulho e diz que você “ajuda em casa” porque você “até sabe lavar a louça”.
Não, amigo, você não está agradando quando diz que a mulher tem que ser tratada como rainha.
Não, amigo, você não está agradando quando chama uma mulher que gosta de sexo de “vadia”, “puta” ou afins.
Não, amigo, você não está agradando quando é mais gentil com uma mulher só porque você está interessado nela.
Não, amigo, você não está agradando quando você justifica seu ciúme como “proteção”.
Você não está agradando. Não é engraçado, não é lisonjeiro, não é divertido, não é agradável. É só irritante, babaca e machista mesmo.
[* Aluna ao mestre: “Mestre, não entendo. Se um homem transa com várias mulheres, ele é visto como um garanhão. Se uma mulher transa com vários homens, ela é vista como uma vadia. Não é injusto?”
Resposta do sábio mestre: “Minha filha, pense nisto da seguinte forma. Se uma chave abre várias fechaduras, ela é uma chave mestra, uma coisa boa de se ter. Já uma fechadura que é aberta por várias chaves diferentes… bem, esta é uma péssima coisa para se ter”.]

Abercrombie & Fitch é aqui

Chupa A&F!

Tudo é escrito a tinta na internet. Fato. Nas últimas semanas, uma entrevista que Mike Jeffries, CEO da marca coxinha Abercrombie & Fitch, deu em 2006 voltou a ser comentada. Nela, Jeffries afirma com todas as letras que não quer pessoas “gordas” e “não-legais” usando a sua marca. Sete anos depois, a A&F deixou de vender os tamanhos XG e XXG e a polêmica se instaurou.

Não quero comentar o tamanho da babaquice que foi uma empresa negar um bom número de consumidores em potencial apenas em nome do “cool”. De qualquer forma, fiquei um pouco espantado quando vi uma galera aqui do Brasil alimentando essa polêmica. Isto porque, bem, grande parte das marcas (falaria 99%, mas me faltam dados empíricos) brasileiras fazem isso.

Qualquer pessoa, mulher principalmente, que use tamanhos acima de 46 sabe do que estou falando. Estou falando sobre aquela sensação ótima de vergonha que se tem ao entrar numa loja de roupas e já receber aquele olhar da vendedora, ou palavras mesmo (incontáveis vezes já escutei um sonoríssimo ‘para você, não tem roupa aqui’, seguido de um olhar de baixo a cima). Ou aquela sensação levemente desesperadora de entrar em quatro, cinco lojas seguidas e nenhuma delas ter algo perto do seu tamanho. Ou aquela frustração básica ao experimentar uma calça do seu tamanho, com uma modelagem menor. Ou, até mesmo, entrar em uma grande loja de departamento e ter que se contentar com a arara dos chamados, ahn, “tamanhos especiais” (acho uma gentileza quando chamam mais de 50% da população brasileira, que está acima do peso, de especiais, mas divago).

Essas sensações todas acontecem por um motivo que chega a ser óbvio: as marcas não produzem roupas de tamanhos maiores. Quando produzem, é em uma escala tão pequena, que acabam rápido. Ou então, quando produzem, não são do tamanho correto. E, antes que me falem que estou falando apenas a partir de um ponto pessoal, indico esta reportagem da Folha. Segundo um estudo do Senai Cetiqt, 64,4% das mulheres do Sudeste têm, em média, 97,1 cm de busto, 85,4 cm de cintura e 102,1 cm de quadril. Para elas, os tamanhos que usam estão, em média, 10 cm inadequados.  “As brasileiras são maiores do que as marcas ‘de ponta’ acreditam. A maioria delas é corpulenta e usa tamanhos entre 42 e 46″, afirmou o coordenador do estudo à Folha.

Amigos, o CEO da A&F só declarou aquilo que já passa pela cabeça das muitas outras grifes de moda, de Channel à C&A. Foi cruel? Pra caralho. (E nem um pouco real) Mas é assim que a ditadura da beleza, ou melhor dizer, o mercado da ‘beleza” age: estabelece uma padronização a partir de um modelo impossível e o consumidor que se vire para atingi-lo.

[quem ilustra este post é a foto da modelo Jes Baker, que fez uma carta aberta contra a A&F em seu blog. Achei LINDO]

PS: Entrei na tabela de tamanhos da Abercrombie & Fitch, só por curiosidade. Enquanto as roupas femininas tem o  ‘L’ (Large, ou G, no Brasil) como maior opção de tamanho; as roupas masculinas têm até o ‘XXL’ (XXG) e XL (XG), no caso das calças. Aparentemente, Jeffries só não quer mulheres gordas usando a sua marca.

PS2: Nunca achei a A&F aquela coca-cola toda. Na verdade, o Fitch escrito nas camisetas dessa grife sempre me remeteram à agência de classificação de riscos Fitch, e, na real, não acho nada cool andar com uma coisa dessas escrita em meu peito. Mas, enfim, sou eu, né?

Porque o discurso do Joaquim Ferreira contra a Piovani não me pegou

Então um colunista critica um programa de beleza. A apresentadora deste mesmo programa rebate. E, como uma boa discussão midiática, isso vai parar no jornal com uma “bela” resposta do próprio colunista. Ou é assim que tentam pintar. Para mim, o caso Joaquim Ferreira vs Luana Piovanni (se não sabe do que estou falando, leia aqui) mostra uma faceta que muito me incomoda quando a discussão toca os padrões de beleza.

Como mulher que, claramente, não se encaixa nesses malditos padrões de beleza (e não por falta de tentativas), sinto meu ego inflado quando leio outras pessoas falando que estes mesmos padrões estão errados. Acho que é um acalento, é quase como saber que não estou sozinha no mundo. Do lado emocional, leio um texto desse e penso “puxa, então não to ficando maluca”. Mas, como mulher, apenas mulher, tenho que começar a questionar isso. Por que que, raios, a minha beleza está veiculada ao olhar de um homem que nem conheço? Gorda ou magra, com o cabelo curto ou comprido, com ou sem maquiagem, com ou sem decote, com ou sem salto,  é fato, vai ter sempre alguém que vai reprovar. SEMPRE. Agora, por que eu, mulher, devo pautar a minha vida por isso?

O texto superficialmente “elogioso” do Joaquim Ferreira, e que é copiado por muitos homens que se acham feministas e que falam ‘eu gosto de mulher com carne”, ou “prefiro as mulheres mais naturais, odeio maquiagem”, quando visto com profundidade tem um machismo intrínseco. Ao alardear o “não padrão” ele também cria um padrão, como se falasse para as mulheres: “hey, não se preocupa, voce vai ser amada mesmo se for gorda”. Mas, por que eu preciso querer ser amada ou desejada por um homem? Por que fazer disso um objetivo de vida?

Veja bem, não estou querendo dizer que não é bom ser amada ou desejada por um homem. Nem que eu não goste disso. Nem que, às vezes, eu não foque isso em uma pessoa específica. Apenas que, caramba, não dá para fazer disso um objetivo final de vida. O que é muito comum quando se trata do discurso da beleza feminina. Muitas meninas bonitas que eu conheço já escutaram a famosa frase “mas você está estudando para que, afinal, é tão bonita”. Infelizmente, para uma (boa) parte das pessoas a mulher deve almejar ser bonita e desejável para conseguir o sucesso. Um discurso que, nem preciso dizer, não está exatamente em pauta quando se trata de homens, que podem escolher ser vaidosos  ou não.

No final das contas, tanto Joaquim Ferreira quanto a Piovani pisaram no tomate. Isso porque os dois deslocaram o olhar da beleza feminina aos homens, como se conseguir um olhar de aprovação ou uma cantada fossem uma missão na vida de toda mulher. Na minha humilde  opinião, homens e mulheres deveriam ser livres para se acharem lindo/as do jeito que quiserem. A beleza deveria partir da própria pessoa, de uma visão própria de bem estar. Ou melhor, no lugar de falar para a mulher “o que voce deve vestir para atrair um homem”, deveriam dizer “o que voce pode vestir que te faça sentir bem”.

 

P.S.: E, me desculpem os homens, mas parar de citar Vinícius de Moraes é FUNDAMENTAL. 

Sete entre dez

[Nan Goldin, Nan One Month After Being Battered, 1984]

Sete entre dez mulheres no mundo irão sofrer ou já sofreram algum tipo de violência. Sete entre dez. Sem nenhuma ajuda, este número já me dá enjoos e involuntários pensamentos pessimistas. A proximidade que tenho com esse assunto, no entanto, dá uma realidade ainda mais torturante para este número maldito, sete entre dez.

Conheço e divido o DNA com mulheres que sofreram agressões. Mulheres fortes, incríveis e que admiro por demais, presas em cativeiros pessoais, com direito a pesadas agressões dentro de casa. Pude testemunhar o que um homem que se diz apaixonado é capaz de fazer por ciúme e por amor. O que o instinto furioso dentro deles pode fazer. Testemunhei a quase morte de mulheres de minha família. A quem amo e respeito muito. Sete entre dez não são só sete entre dez. São milhares entre dez. Uma mulher agredida não sofre sozinha, os filhos, primos, tios, sobrinhos e vizinhos sofrem com ela. Sofrem com os machucados mas também com a  impunidade e com a inépcia da Justiça. Morrem um pouco com cada ameaça e com a sensação de impotência.

Tenho orgulho, mas também tenho medo, muito medo de ser mulher nesse País. Medo de ser atacada em qualquer canto escuro. Medo de ser assediada em um ônibus num dia de calor e, pior, ser culpada por isso porque “estava usando um short curto” ou “o decote estava grande demais”. Medo de beber demais em alguma festa e acabar desacordada e nua na cama de “amigos”. Medo de ser machucada, literalmente, por alguém que ganhou a minha confiança. No fim, medo de ser quase morta por alguém que amo e que, em algum momento, jurou me amar também.

Queria não ter proximidade com este tema. Ao mesmo tempo que gostaria, intimamente, que todos tivessem algum tipo de ligação com ele. Assim não seria tão banal.