Fones de ouvido

Confesso, não era uma pessoa que conhecia os caminhos do transporte público quando morava em Santos. Não usava ônibus de jeito nenhum, sempre arranjava um jeito de pegar carona com pai de amiga, ligava pra mãe e afins. Pois bem, apesar de todos os apertos e desapertos, trânsitos e furtos, aprendi a usar [e até a ver alguns pontos positivos] no bus aqui em São Paulo. É só colocar o fone de ouvido, torcer pro motorista não ser um maluco e ir.

Ou não, né?

não, a foto não é minha, #droga

Num dia desses nas minhas tão magras férias agora de julho, fui até o centro de Santos para buscar meu passaporte e, de lá, fui até o Gonzaga. Eu e meu inseparável companheiro, o ipod roxo [que, junto dos livros 5, 6 e 7 do Harry Potter foram meu conforto neste fim de junho/início de julho]. Qual foi a minha surpresa quando as pessoas do ônibus me olharam de maneira estranha quando coloquei os foninhos brancos do iPod?  Primeiro achei que a música estava muito alta. Não.  Então não liguei muito, estava um sol lindo e o õnibus segui até que um caminho legal.

Só depois me liguei que ninguém, NINGUÉM no ônibus estava usando fone de ouvido. Nem nas ruas. Ninguém nas ruas do gonzaga [ou até mesmo nas ruas do meu bairro, no mercadinho do lado] andava com fone de nada. Sem contar que o ritmo em que andava era quase maluco para as pessoas do meu lado. Percebi que passava esbarrando nelas – e que elas, por sua vez, me olhavam assustadas -, como se estivesse com muita pressa de chegar a lugar algum. Afinal, estava de férias e, naquele dia em específico, não tinha nenhum horário marcado com ninguém.

É interessantemente assustador como nos acostumamos com certos hábitos. Como nos tornamos insensíveis a eles. Acho que naquele momento, ou melhor, um pouco depois desse passeio de ônibus por Santos que comecei a me dar conta o quanto São Paulo é violento. Não nos índices de homicídio ou morte. Mas violento com o nosso tempo interno. São Paulo tem o poder de acelerar a nossa vida e de nos tornar mais auto-centrados. Cada um no seu quadrado.

Qual a razão, afinal, de uma pessoa escutar música enquanto anda na rua? Por que não escutar os barulhos da rua? Qual o mal em escutar as pessoas do ônibus?  Quer dizer, será que a gente precisa ser entretido a todo momento a ponto de esquecer que vive numa cidade com outras pessoas? Qual o problema em saber da existência dela?

Olha, eu tenho uma teoria sobre isso. Eu não, Marc Augé. Esse cara escreveu sobre como a supermodernidade está nos levando a criar ‘não lugares’, ou seja, lugares que servem apenas para a passagem de pessoas. Lugares com as quais as pessoas não se identificam mais. Dentro dessa ideia, eu gostaria de acrescentar que as grandes cidades, como São Paulo, exigem certas adaptações de seus moradores. Para a nossa sobrevivência, criamos máscaras de impessoalidade. Eu não sei o que ocorre com a pessoa do meu lado, ela não sabe o que acontece comigo, nós vivemos bem, cada um a nossa vida, e é capaz de nunca mais nos encontrarmos no transporte público.

No cotidiano, São Paulo é uma cidade impessoal. As ruas são não lugares. Não criam vínculos. Pelo menos, acho que sou impessoal no meu cotidiano. Os ônibus são meus grandes não-lugares; mais impessoal do que nunca. E esse contato com uma cidade pessoal no seu dia a dia, como Santos, foi uma lembrança de que, ás vezes, é melhor apenas apreciar os sons da cidade do que qualquer música da minha playlist ou preferir o contato com elas do que o touch do ipod ou, até mesmo, achar melhor caminhas ao meu ritmo e não ao ritmo de Arcade Fire*.

*Uma coincidência : o álbum The Suburbs, do Arcade Fire, fala exatamente sobre a diferença que se tem entre a vida dos suburbios e a vida das cidades. Cada qual com o seu tipo de amarra.

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